As Marinas e Beneditas são nossas

Num país de injustiças sociais grotescas, de violências pessoais físicas estéticas e comunitárias inomináveis, e de um sentido moral que autoriza, permite e estimula a distinção e a subjugação e mesmo a eliminação pelo pertencimento racial e cor da pele, sobreviver, manter vivo e crível a chama da esperança, realizar sonhos e utopias e alcançar os mais destacados e importantes objetivos pessoais, espirituais, políticos e sociais, necessariamente será sempre tarefa de um ser humano dotado de uma capacidade extraordinária de destemor, coragem e resiliência.

Se esse país é tomado por um transtorno psicótico que desumaniza, agride e hostiliza suas mulheres, e que, seus homens inscrevem como direito transcendental, o poder de subjugar o “sexo frágil” das mulheres calando-lhe a voz, interditando sua autonomia, apoderando-se de seu corpo, regateando com seus direitos humanos e assassinando-a à luz do dia ou da noite no espaço sagrado do lar, viver nesse país e manter-se viva, ter sonhos esperançados e acreditar em dias melhores, é uma tradução acabada de um honroso ato heroico para qualquer mulher brasileira.

E, se essa mulher é negra, favelada, faxineira e empregada doméstica ou uma boia fria seringueira que se alfabetizou aos 16 anos de idade? E, se ambas, sem jamais se acovardar, esmorecer e sem nunca desacreditar, combater e enfrentar tudo e todos? E, se, cumprindo e obedecendo todas as regras e procedimentos, com coragem, bravura e ética tornassem vereadora, deputadas, ministras, governadora? Se fossem as primeiras mulheres negras senadoras da história, candidatas a presidência da República, se entregando totalmente na tarefa de ajudar e defender as pessoas, transformando suas vidas e suas vidas? E, se finalmente, se transformassem em personalidades aclamadas e reverenciadas mundialmente?

Que expressividade traduziriam essas mulheres, que não manifestação vivas e reais da capacidade de superação e transformação do ser humano diante das mais tremendas agruras e adversidades? Que transcendentalidade consistiriam, senão a manifestação da própria máxima divina que, mesmo pelas linhas tortas encaminham para os certeiros caminhos da sua benevolência, compaixão e acolhimento? Que título de reconhecimento mereceriam essas mulheres, que não heroínas?

Sim, heroínas!! O povo brasileiro, os negros brasileiros e povos das mais diferentes localidades da terra definiram, distinguiram e destacaram essas atitudes, esses posicionamentos, essa trajetória como própria de heróis, e celebram e cultuam esse heroísmo com respeito, reverência e admiração.

No Brasil, na instituição fruto de uma luta de conquista homérica dos negros e brancos para superar e reparar os erros imperdoáveis da historiografia brasileira, e cujo fundamento, finalidade e objetivo é justamente o anteparo de defesa, engrandecimento e fortalecimento da trajetória e vida dos heróis negros aclamado mundo afora, nesse lugar, os heróis negros não entram mais, e os que lá estão, estão sendo vilipendiados, hostilizados, agredidos e violentados pelo seu presidente negro.

Como senhor das guerras e portador do direito divino de decidir quem vive e quem morre, ele define a oportunidade e a conveniência para determinar quem é herói, quem é negro de verdade e quem pode ou não habitar aquela casa.

Esse portentoso, bravo, corajoso, potente e imponente guerreiro; esse grandioso, admirável e magnifico senhor das guerras, cuja trajetória histórica traduz num balsamo de nossas inquietações e insuficiências e cujo fulguração divinal de suas glorias e epopeias repousam como deslumbramento nas nossas retinas, não tem nome. Não existe nos nossos registros mentais ou sociais. E se existisse não merece citação.

As Marinas e as Beneditas são nossas e serão muito bem vindas e reverenciadas na casa de todos nós brasileiros que acreditamos que o mundo mais belo é aquele em que todos sejam tratados igualitariamente com dignidade e respeito, independentemente da sua raça, cor, origem, sexo, opinião e filiação partidária.

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