Antijornalismo: como repórter enganou Diana para conseguir entrevista

Diana era espionada e grampeada, Camilla estava deprimida, Charles tinha se apaixonado pela governanta dos filhos e seu irmão caçula, Edward, sofria de Aids.

Estas foram algumas das espantosas mentiras contadas pelo jornalista Martin Bashir, da BBC, para ganhar a simpatia da princesa e conseguir que ela desse uma entrevista com declarações bombásticas.

Na entrevista, transmitida em novembro de 1995, Diana deu uma de suas declarações mais famosas: “Tinha três pessoas no meu casamento, então estava um pouco cheio”.

Ela se referia ao caso, já amplamente assumido, de Charles com Camilla, com quem ele se casou anos depois da morte de Diana.

A repercussão foi tamanha que a rainha Elizabeth determinou que os dois deviam se divorciar. Agora, várias vozes estão se erguendo para estabelecer uma conexão entre o divórcio de Diana, que a deixou sem segurança oficial, e a morte num acidente de carro em Paris, menos de dois anos depois.

Uma das mais eloquentes foi de seu filho William.

“É minha opinião que o modo enganoso como a entrevista foi obtida influenciou substancialmente o que minha mãe disse. A entrevista contribuiu muito para piorar o relacionamento de meus pais e magoou muitos outros”, disse William, num tom dramático e quase sem precedentes.

“É motivo de tristeza indescritível saber que as falhas da BBC contribuíram significativamente para o medo, a paranoia e o isolamento dos quais me lembro nesses anos finais com ela”.

Uma amiga de Diana da época, Simone Simmons, que também era uma espécie de guru espiritual da princesa, relatou ter visto as mesmas reações nela.

Simone também acha que Diana ainda estaria viva se não fosse a entrevista obtida com base em alegações mentirosas.

Diz a amiga que a princesa ficou totalmente paranoica, passou a buscar grampos em toda parte e a achar que a família real queria “se livrar” dela. O  divórcio, depois do qual perdeu o tratamento de Sua Alteza Real e também a segurança bancada pelo Estado, a deixou mais insegura ainda.

As mentiras de Martin Bashir só foram comprovadas, 25 anos depois, por uma segunda investigação independente, porque o irmão de Diana, conde Charles Spencer, fez anotações detalhadas sobre um encontro sigiloso entre os três, para discutir a possibilidade de uma entrevista.

Bashir conseguiu acesso a Spencer falsificando depósitos bancários jamais feitos na conta do encarregado de sua segurança. Com a farsa, feita com ajuda de um editor do departamento de gráficos da BBC, o repórter pretendeu comprovar que Spencer também estava sob vigilância por causa da irmã.

Spencer concordou em fazer a ponte com Diana. Mas depois de anotar todas as alegações feitas por Bashir na primeira conversa, saiu convencido de que ele era um mentiroso delirante, pediu desculpas à irmã por ter feito um contato tão comprometido e deu o assunto por encerrado.

Mas Diana continuou disposta a falar com o repórter até ser convencida a dar a entrevista, na qual, além de acusar Charles de destruir o casamento por causa de Camilla, também admitiu que ela mesma tinha tido um caso extraconjugal com o bonitão James Hewitt, instrutor de equitação de seus filhos ainda pequenos.

A entrevista foi considerada pelo público como uma vingança, em retribuição a declarações do próprio Charles. Mas, do ponto de vista da família real, o pior que aconteceu foi Diana ter contestado publicamente a capacidade de seu ainda marido de assumir o trono, um assunto que causava “conflito” para ele.

“Como conheço a pessoa, diria que o ‘emprego principal’, como eu digo, traria enormes limitações a ele e não sei se ele conseguiria se adaptar”, disse Diana. Charles, evidentemente, passou a vida inteira se preparando para ser rei – e continua esperando até hoje, aos 72 anos.

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Diana se transformou assim numa ameaça à continuidade na linha sucessória, uma cláusula de ferro das monarquias. Perdeu o pouco que tinha de apoio na família real.

Conquistar as boas graças e criar proximidade – forçada, reconheça-se – com potenciais entrevistados não é incomum na profissão. Usar pretextos falsos, informações inventadas e até recibos fabricados são recursos, evidentemente, que contrariam a mais elementar ética jornalista. 

A BBC chegou a fazer uma primeira investigação, que não apurou nada. Só agora, os fatos estão sendo devidamente esclarecidos através do trabalho de John Dyson, juiz aposentado que é membro da Câmara dos Lordes.

Com a segunda investigação chegando perto do fim, Martin Bashir pediu demissão da BBC, à qual havia retornado como editor de religião – de todos os assuntos – depois de um período trabalhando nos Estados Unidos. Nessa época, também teve que se demitir depois de fazer uma declaração escatológica sobre Sarah Palin, a ex-governadora do Alasca que tinha se transformado em figura odiosa para a esquerda.

Na época da entrevista, o príncipe William tinha apenas 13 anos e, segundo Simone Simmons, sofreu bullying na escola por causa das revelações íntimas feitas por Diana.

Entre as insanidades alegadas por Bashir, filho de paquistaneses que foi criado no estilo ocidental, constava que havia gravações de  conversas de Charles com seu secretário particular, feitas pelo serviço de inteligência, mostrando como o príncipe herdeiro tramava fazer toda a família Spencer fugir da Inglaterra.

Se não fosse o velho e bom hábito de anotar conversas importantes, Charles Spencer não poderia comprovar as mentiras do repórter.

Por maiores que tenham sido seus abusos, pode Bashir ser responsabilizado pelas declarações explosivas de Diana?

Diana tinha vivido um período “extraordinariamente turbulento e difícil”, disse Spencer ao mesmo programa Panorama que pôs no ar a entrevista 25 anos atrás,  e foi sendo colocada na posição de “não saber em quem confiar”.

Teria a entrevista dado um empurrão na trajetória que acabou tragicamente num túnel de Paris, com Diana morta num Mercedes alugado junto com um namorado de ocasião, Dodi Fayed? 

Ela já era emocionalmente frágil, nunca se conformou por ter sido trocada por Camila e ficou mais exposta depois do divórcio. Segundo a amiga Simone Simmons, ela achava que ia dar a entrevista para falar de suas obras filantrópicas. Também imaginava, ingenuamente, que criaria uma imagem simpática à família do homem por quem estava apaixonada na época,  o cirurgião paquistanês Hasnat Khan.

Cruelmente, não conseguiu nada do que queria. Já Martin Bashir foi celebrado, virou uma estrela do jornalismo e viveu da fama conquistada pela entrevista mais famosa do programa Panorama. Que seus métodos sórdidos tenham finalmente vindo à tona pelo menos traz alguma justiça à princesa morta.

“Embora a BBC não possa voltar o relógio depois de um quarto de século, nós podemos apresentar um pedido total e incondicional de desculpas. É isso que a BBC faz hoje”, disse o diretor Tim Davies.

Tendo criado vários dos padrões mais elevados e consagrados do jornalismo, a emissora pública, com múltiplos canais de televisão e rádio, hoje sofre críticas por causa do viés cada vez mais à esquerda do espectro político. 

Ironicamente, foi a BBC, e não os tabloides de padrões éticos tão discutíveis, que causou maior estrago na vida da princesa.

Martin Bashir pediu desculpas pelo recibo falso mostrado a Charles Spencer, um “ato que lamento profundamente”, mas insistiu que isso não teve influência nenhuma “na decisão pessoal da princesa Diana de fazer parte da entrevista”. 

O jornalista, que no ano passado fez quatro pontes de safena, pode ainda ser alvo de uma investigação policial.

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