Ela passou 28 anos sem pátria nem documentos: “Eu me sentia invisível”

Maha Mano –Fernando Gutierrez Aliaga/.

Nasci no Líbano, em 1988, fruto de um relacionamento entre uma muçulmana e um cristão de famílias tradicionais da Síria. Meus pais haviam se conhecido em sua terra natal, mas foram alvo de feroz preconceito por romperem as barreiras que separavam suas religiões. Aí resolveram se mudar para Beirute e ali formaram uma família, com meus dois irmãos e eu. Nunca imaginaram, porém, que viveríamos como apátridas, sem ser reconhecidos oficialmente como cidadãos em nenhum país. De um lado, o Líbano não concedia nacionalidade a crianças de pais estrangeiros. De outro, os cartórios sírios não reconheciam casamentos inter-religiosos, como o dos meus pais. E assim passei toda a minha infância e adolescência, até os 28 anos de idade, sem nenhum registro nem documento, sentido-me inferior, invisível aos olhos da sociedade.

Foi um suplício encontrar uma escola que nos aceitasse sem que tivéssemos um número de identidade. Acabamos contando com a boa vontade de um único colégio e, desse modo, pudemos estudar. Certos hospitais se recusavam a nos atender, mesmo em casos de emergência. Uma vez, no meio de uma crise alérgica grave, precisei ser internada às pressas. Só me atenderam depois de uma amiga subornar os médicos para que me registrassem com o nome dela. E muitos outros obstáculos iam surgindo. Fui impedida de integrar uma equipe profissional de basquete e de viajar com meus colegas. Sem passaporte, não podia sair do país. O mais doído foi deixar de lado o sonho de cursar medicina. Nenhuma faculdade no Líbano permitia minha matrícula. Com muito custo e insistência, aos 22, fiz a graduação em sistemas de informação e o mestrado em administração. Mas, mesmo qualificada e falando quatro idiomas, virei assistente em uma construtora. Sempre ganhei menos do que os meus colegas, por não ser registrada.

Uma existência sem documento é envolta em medo. Vivia com um pavor que só bandidos têm: ser parada no meio da rua pela polícia. Pois apenas o fato de estar ali já seria ilegal. Aos 16 anos, comecei a me mexer para tentar mudar essa situação e escrevi para todas as embaixadas em Beirute que encontrei no Google. Foram dezenas de e-mails contando minha longa história e pedindo ajuda. Fui ignorada por dez anos, até que, em 2014, o governo brasileiro me ofereceu um documento especial para viajar ao Brasil e ser registrada como refugiada. Tudo o que tinha escutado sobre o Brasil se resumia a futebol, Carnaval e violência. Aos 26 anos, embarquei para Belo Horizonte com meus irmãos, de 24 e 28. Moramos na casa de uma família que generosamente nos acolheu. E aí, finalmente, recebi um número de CPF e uma carteira de trabalho, o início do processo de meu reconhecimento como cidadã. No meio do caminho, meu irmão acabou morrendo de forma estúpida, em um assalto, ainda sem sua nacionalidade, o que só fez acentuar em mim a necessidade de seguir em frente.

Por todo o barulho que fiz em torno de minha história, um dia fui convidada pela ONU para ser um dos rostos da campanha I Belong (Eu Pertenço). Rodei dezenas de cidades e países e recentemente escrevi uma biografia (Maha Mamo: a Luta de uma Apátrida pelo Direito de Existir, em coautoria com Darcio Oliveira). Em 2017, o Brasil aprovou em sua legislação imigratória o reconhecimento da chamada apatridia, um dos pioneiros no mundo. Um ano depois, eu e minha irmã nos tornamos as primeiras reconhecidas aqui segundo essa lei, o dia mais pleno da minha vida, sem exagero. Ganhei RG, passaporte, o direito de ter uma casa em meu nome e de me casar no papel. Se tiver filhos, serão brasileiros, com muito orgulho. Demorou, mas hoje posso dizer, com todas as letras, que não me sinto mais invisível.

Maha Mamo em depoimento dado a Julia Braun

Publicado em VEJA de 14 de abril de 2021, edição nº 2733

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