Trump como fenômeno: ‘We love you! We love you! We love you’

Em 2016, Hillary Clinton ganhou a eleição para presidente em Washington com 90,9% dos votos. Donald Trump teve 4,1%.

Isso ajuda a explicar o estado de choque em que o distrito federal e adjacências – três entidades estaduais confluem na região da capital – ficaram ao ver os entusiásticos e emocionados grupos que afluíram para o hospital Walter Reed.

Como a capital americana, da mesma forma que Brasília, gira em torno de dois eixos, políticos e jornalistas, no meio de uma população majoritariamente negra e democrata, funciona no esquema de “bolha”: o que acontece em outras partes do país soa remoto e estranho.

E o que poderia ser mais estranho do que ver pessoas comuns, muitas delas vindas de longe, manifestando não apenas solidariedade com o Trump derrubado pelo coronavírus, mas gritando: “We love you! We love you! We love you!”.

A declaração de amor, equivalente, em termos brasileiros, aos gritos de “Mito” para Jair Bolsonaro, embora muito mais recente, surgiu espontaneamente num comício de Trump em Michigan, no começo de setembro.

O presidente fez sinal enxugar as lágrimas e avisou, de brincadeira, que ninguém gostaria de vê-lo chorar.

Outro sinal de emoção foi demonstrado quando ele entrou num SUV blindado do corpo de agentes do Serviço Secreto e deu uma voltinha em frente ao hospital, acenando a seus partidários.

A grande imprensa entrou em surto, condenando-o por “colocar em risco a vida” dos agentes – sem saber se estes estavam ou não protegidos do contágio -, mas os grupos reunidos na frente do hospital viram nisso mais um gesto de magnanimidade do presidente.

Trump como fenômeno pop – tanto no sentido de cultura popular quanto de política populista – não é novidade. 

A bizarra cabeleira tingida de loiro, a pele artificialmente bronzeada, os bonés vermelhos, o gestual de quem trabalhou num programa de televisão e a linguagem sem freios compõem um personagem feito para as massas – para o bem ou para o mal.

Mas a doença parece tê-lo elevado a um outro e inesperado nível: o arquétipo do herói que sacrifica tudo para redimir seu povo.

Leia nesta edição: os planos do presidente para o Supremo. E mais: as profundas transformações provocadas no cotidiano pela pandemiaVEJA/VEJA

Dois dos argumentos mais ouvidos entre os partidários de Trump que se congregaram espontaneamente não só em Washington, mas em pequenos grupos em outras partes do país, correspondem a esse tipo de apelo.

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Primeiro, ele “ficou do nosso lado” como representante dos excluídos, os deploráveis, na definição infeliz de Hillary Clinton, os que não apenas nunca são ouvidos nos centros do poder como também ridicularizados por acreditar em valores tradicionais, resumidos na trindade Deus, pátria e família.

Na doença, são seus partidários que deveriam agora ficar do lado dele.

Segundo, Trump é um bilionário que não precisava se jogar no mar de lama da política, mas o fez mesmo assim, para salvar a América.

A singeleza dos argumentos causa repúdio entre as elites – e mesmo entre os democratas comuns, dos quais, segundo uma pesquisa, 40% se sentiram bem ao saber que o presidente estava com Covid-19, um sentimento resumido em duas palavras: “Bem feito”.

Para enfurecer ainda mais a oposição, Trump deixou o hospital proclamando exatamente o oposto do que seria o “efeito humildade” produzido em geral pela doença.

“Não tenham medo da Covid. Não deixem que domine sua vida”, disse.

Foi o suficiente para a oposição espumar mais um pouco e Joe Biden revoltar-se contra “essa coisa de machão”.

Pela lógica, Trump deveria parecer tudo menos exultante. 

A internação culminou uma semana em que estava pregado nas cordas, com a revelação de seu imposto de renda, o debate com performance lamentável e o caos de sempre reinando sobre a revelação de que não só ele, mas outras doze pessoas de seu círculo haviam sido contaminadas pelo vírus.

Nas pesquisas depois do debate, Joe Biden disparou, chegando a treze pontos de vantagem em determinados estados.

Trump está frito, perdido, ferrado, acabado, destinado a um final inglório, diz a lógica.

“We love you!”, respondem os trumpistas mais entusiasmados.

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