A crise invade os quartéis (Por Hubert Alquéres)

A última vez que um presidente da República deflagrou uma crise ao demitir sumariamente um general em posto de comando foi no episódio Sílvio Frota, quando Ernesto Geisel degolou seu ministro da Guerra. Agora, depois de 44 anos, Jair Bolsonaro volta a demitir sumariamente um ministro da Defesa, o general de Exército Fernando Azevedo e Silva.

Provocou uma reação em cadeia. Ato contínuo veio o pedido de demissão conjunto dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, em um claro desagravo ao agora ex-ministro Azevedo. Mais do que isso: evidenciou que a cúpula militar não está disposta a participar de qualquer aventura golpista. Isso só seria possível se Jair Bolsonaro conseguisse fazer uma “depuração” na tropa, colocando em postos de comando generais dóceis à ideia de um alto golpe. Algo improvável tendo em vista que a cadeia de comando das três forças tem se mostrado altamente preocupada em evitar identificação direta entre governo, uma instituição transitória, e as Forças Armadas, uma instituição permanente de Estado.

É da natureza dos militares evitar demissões coletivas para não serem interpretados como indisciplinados ou quebradores da hierarquia. Quando se demitem de uma função, o fazem sem alarde. O rompimento dessa tradição por parte da cadeia de comando das Forças Armadas é uma demonstração eloquente de que a crise se espraiou pela tropa. Explodiu agora, mas seu rastro vem de longe.

A alça de mira do presidente estava apontada há um ano para a cabeça do comandante do Exército, Edson Pujol. O general é um militar de comportamento exemplar quanto à observância do papel constitucional das Forças Armadas. Sempre se manteve firme contra planos do presidente de politização das tropas e de instrumentalizá-las para seu projeto de poder.

Bolsonaro agora apostou alto, trazendo a instabilidade política para o núcleo militar, uma área vital do tripé que dá sustentação ao seu governo, que se completa com a ala ideológica e a equipe econômica.

A caserna vinha passando ao largo da crise tripla (econômica, sanitária e política), não obstante a pregação diuturna de Bolsonaro nos quartéis. Havia uma linha riscada no chão pelos três comandantes, da qual Fernando Azevedo era avalista, delimitando a fronteira das Forças Armadas como instituições de Estado. A linha foi borrada agora.

A nota do ex-ministro da Defesa é autoexplicativa. Caiu porque o presidente quer transformá-las em propriedade do bolsonarismo, tal qual o chavismo apoderou-se do exército com sua guarda pretoriana.

Entender por que Bolsonaro avançou tanto nos leva a indagar se não há mais pólvora no ar do que pode imaginar a nossa vã filosofia. Em palestra recente, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta alertou quanto ao grave erro de se subestimar o presidente, tratando-o como limitado ou tosco. Bolsonaro tem método e estratégia, age de forma calculada perseguindo seus objetivos. A caixa de pandora a ser decifrada é saber por que Fernando Azevedo foi guilhotinado.

Não é crível que Bolsonaro tenha comprado uma briga tão gigantesca apenas por causa da entrevista do general Paulo Sérgio, chefe do Departamento-Geral de Pessoal do Exército, ao Correio Brasiliense, na qual defendeu o isolamento social. Queria demiti-lo, é fato. Mas isso não explica o principal.

A jornalista Thaís Oyama nos deu uma pista: o presidente queria que o general Edson Pujol se manifestasse contra a decisão do Supremo Tribunal Federal que anulou as condenações do ex-presidente Lula, tornando-o elegível.

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Se o comandante do Exército concordasse, estaria mandando um recado cifrado de que os militares não aceitariam a volta do ex-presidente ao poder, caso fosse vitorioso na eleição de 2022. Como o ministro da Defesa se opôs a demitir Pujol, a primeira cabeça a rolar foi a sua. A conferir quem passou a informação para a jornalista, que tem fontes privilegiadas. Certamente foi alguém muito próximo do ex-ministro da Defesa ou ao próprio Pujol.

No paiol de Bolsonaro há muita ogiva. Não se sabe se, e quando, elas explodirão.

O míssil antidemocrático pode ser a decretação do estado de defesa ou de sítio, sob o pretexto de “restaurar a autoridade presidencial’ posta em xeque, no seu entendimento, por governadores e decisões da Suprema Corte. No horizonte de médio prazo o artefato bélico seria virar a mesa em 2022, na hipótese de sua derrota.

Para tais planos é condição básica ter as Forças Armadas inteiramente alinhadas aos seus objetivos políticos. Daí a necessidade de mudar a cadeia de comando. Exige contrapartida porque deu muito aos militares – privilégios na aposentadoria, orçamento militar, postos estrelados nas estatais e no núcleo central do poder. E quem dá, quer receber, como já ensinava Santo Agostinho.

Mas a postura de Edson Pujol tem respaldo na cadeia de comando do Exército. Será muito difícil para o presidente encontrar um general de quatro estrelas sem violar o almanaque do Exército, no qual o comandante da arma é o general mais antigo. O favorito de Bolsonaro para o cargo, general Marcos Freire Gomes, teria de “caronear” quatro generais mais antigos do que ele para assumir o comando.

Difícil, mas não impossível. A mosca azul também dá suas picadas em militares. Basta relembrar o exemplo da sucessão de Sílvio Frota. Seu substituto, general Fernando Belfort Bethlem, era da linha dura e alinhado a Frota. Convidado por Geisel para ministro da Guerra, virou “aberturista” desde criancinha.

Há ainda um enorme ponto de interrogação sobre o comportamento do novo ministro da Defesa Walter Souza Braga Netto, um cumpridor de ordens. Pau para toda obra, o general teria de passar por cima de um dos mais sagrados valores dos militares, a camaradagem, para enquadrá-los no projeto unipessoal do presidente. A altercação entre o ex-comandante da Marinha e o novo ministro da Defesa na reunião na qual foi selado o pedido coletivo de demissão, diz bem o quanto a situação é explosiva.

Em favor do novo ministro da Defesa registre-se o tom da ordem do dia sobre o 31 de março, com evidências de que, apesar da troca de guarda no Ministério, as Forças Armadas não pretendem sair da rota que vem seguindo desde a redemocratização de 1985.

É célebre a frase de que quando a política adentra nos quartéis instala-se o germe da divisão, da anarquia e da indisciplina. Esse é o mal maior que Jair Bolsonaro está fazendo às Forças Armadas e ao país.

Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação e escreve às 4as feiras no blog do Noblat 

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