A estampa da malandragem (por Gaudêncio Torquato)

A malandragem no DNA do brasileiro tem sido usada intensamente nesses tempos de pandemia. Casos de arrepiar. Em Manaus, duas irmãs gêmeas, filhas de um empresário do ramo da educação, foram exoneradas da Prefeitura por suspeita de terem furado a fila da vacinação. Formadas em medicina no ano passado, nomeadas entre 18 e 19 de janeiro para uma Unidade Básica de Saúde, foram as primeiras a receber as vacinas. No Rio de Janeiro, uma idosa de 97 anos foi enganada: a enfermeira foi flagrada pela cuidadora, que viu a agulha sem a dose da vacina no braço da mulher. A malandragem campeia.

Furar filas tem sido usual. Como pano de fundo, os notórios “furadores”, que ostentam o poder do cargo, especializados na “carteirada” com sua arrogância: “você sabe com quem está falando?” A situação tornou-se até um negócio. Filas para emprego, recebimento de benefícios, cestas de alimentos ou compras de ingresso são ocupadas por “guardadores de vaga”. Quanto mais próximo do atendimento, mais caro.

Outro negócio da rua é o do guardador de vaga para estacionamento. Malandro profissional. Se chegar em cima da hora, não tem saída: paga adiantado. Nos arredores de estádios de futebol e parques de lazer, não há moleza. Se não pagar, corre o risco de depredação. Estacionamento para deficientes e idosos também entra nessa, mesmo que se mostre o cartão com direito à vaga.

Nessa paisagem, nem todos são malandros: os vendedores de balas e chicletes, fazendo pitorescos dribles para passar adiante os saquinhos. Muitos levam filhos pequenos.

Fato é que a estética de nossas ruas é um desenho mal-ajambrado de malandros e também de pessoas necessitadas, esmoleres, deficientes físicos, famintos, adolescentes equilibristas e até gente de porte atlético pedindo “emprego”, esse sonho de quase 15 milhões de brasileiros.

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E, como fecho, a malandragem tecnológica. Um instituto de pesquisa americano (Cibersecurity Ventures) calcula que os crimes digitais este ano impactarão a economia cibernética em U$ 6 trilhões. Só a China e os EUA têm um PIB maior que isso. A malandragem tem um campo fértil para prosperar por aqui.

O cenário do “jeitinho brasileiro” está ganhando novas tintas. Sob a pandemia, a criatividade avulta até junto aos moradores de rua. Pedintes ganham moedas levando um frasco de álcool gel, assim como distribuidores de folhetos. Limites e espaços se estreitam. Nossa margem de caridade desce na escala espiritual.

Os contrastes assombram. Grupos empresariais exibem lucros extraordinários. O cimo da pirâmide fica mais poderoso e a base se alarga com a volta de milhões de famílias à pobreza.

O arremate é desolador: a pandemia nos deixará mais carentes e o país verá uma queda de mais de 4% de seu PIB. E para onde vai nossa fé? O grande escritor Fernando Sabino nos consola: “de tudo ficam três coisas…a certeza de que estamos começando…a certeza de que é preciso continuar…a certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar. Façamos da interrupção um caminho novo. Da queda, um passo de dança. Do medo, uma escada. Do sonho, uma ponte”.

 

Gaudêncio Torquato é jornalista, escritor, professor titular da USP e consultor político

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