A Lava Jato ainda é o grande pavor da classe política

Já mencionamos aqui que o tecido político apodrecido que pilota a corrupção sistêmica no Brasil, que por sua vez alimenta o fenômeno do crime institucionalizado, tem sete vidas e o poder de se metamorfosear, como um organismo que busca constantemente a adaptação às novas realidades e contingências das relações políticas e dos poderes entre si.

Cabe esclarecer que esses esquemas não têm ideologias e tampouco podem ser identificados com os campos da esquerda ou direita.

Também alertamos que essas oligarquias são fortemente associadas a alguns segmentos empresariais – o lado privado do balcão das fraudes em contratos públicos. A Lava Jato comprovou isso com o envolvimento em peso das grandes empreiteiras nas fraudes bilionárias que foram tramadas com a Petrobras.

E, por último, já mencionamos que há igualmente alguns setores – que chamamos de superestruturas – que, não estando no centro da perpetração dos esquemas ilegais, vivem e se locupletam de suas polpudas beiradas. São atores periféricos que apoiam e/ou protegem os esquemas em troca de “quinhões” e de “momentos positivos” no grande tabuleiro que junta capitalismo de compadrio, assistencialismo e patrimonialismo, a partir dessa institucionalização da delinquência política.

Tais grupos fornecem um apoio valoroso ao establishment que conduz o crime institucionalizado. Podem ser classes inteiras, carreiras públicas, organizações, sindicatos e extratos profissionais. Podem ser também setores empresariais. Essas superestruturas variam, conforme o momento e o nível de resistência moral de seus líderes, representantes ou simples integrantes.

Dito isso, vamos ao momento político em que vivemos, onde deputados e senadores de todos os partidos e matizes ideológicas – bolsonaristas e petistas – deixaram de lado momentaneamente a polarização para se unirem em torno de apenas um único e singelo objetivo: enterrar a Operação Lava Jato, retroceder com seus avanços e anular suas conquistas. Em outras palavras, atuaram para se livrarem das malhas da Justiça.

E o que se viu com as articulações e alianças que levaram à eleição dos dois novos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal não foi outra coisa. Não se focam nas prometidas reformas administrativa ou tributária nem em nenhum outro pacote de medidas pretensamente salvadoras. Ninguém está preocupado em mudar absolutamente nada. A classe política comprometida, e alvejada em cheio pela Operação Lava Jato, se uniu tão somente para preparar o funeral da única e grande iniciativa que poderia ter colocado fim no grande atraso em que a política e os nossos pseudo-representantes amarram o nosso país.

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Até porque, de que adiantaria promover mudanças estruturais, organizar o sistema fiscal e administrativo do país, se o controle político dos recursos financeiros seguirem nas mãos de grupos como o Centrão, que vem protagonizando escândalos de corrupção nos últimos anos, como os próprios Mensalão e Petrolão?

Em paralelo, ocorrendo quase que ao mesmo tempo, como a evolução de uma afinadíssima orquestra sinfônica, as forças-tarefas da operação Lava Jato tiveram as portas fechadas em Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro, por determinação do próprio Procurador Geral da República.

Contudo, para os que pensam que o lado escuro teria vencido a batalha final, saibam que “ainda estão rolando os dados”, e por isso colocamos algumas questões centrais: se a força transformadora da Lava Jato não fosse ainda tão grande, e tão assustadora, não veríamos grande parte dessa classe política corrompida aliando-se em torno do seu enfrentamento e destruição; ninguém se alia de forma tão avassaladora contra algo que não mereça atenção. A aliança dos corruptos nos deu a dimensão da força contrária representada pela Lava Jato.

E como já disse uma vez, a Lava Jato hoje tornou-se um patrimônio imaterial da sociedade brasileira, pois ela se consubstanciou na própria consciência do povo, no conhecimento sedimentado de que há uma elite política que o trai, o engana e o afana 24 horas por dia, 7 dias por semana. Por mais que encerrem suas forças tarefas, removam seus procuradores da República e exilem seus delegados da Polícia Federal, a sociedade sabe quem são os políticos corruptos, quem são os membros do Judiciário que os apoiam e os protegem, e quais são os setores que se locupletam de suas raspas e restos.

E assim como a delinquência institucionalizada é, como já bem definimos, uma “criminalidade sufragada”, pois anacronicamente, como uma avis rara das ciências criminais, chega ao poder pelo processo democrático das eleições – uma morfologia criminosa literalmente empoderada pelo voto – o que a torna até certo ponto blindada pela vontade popular, expressada de 4 em 4 anos, temos que essa mesma janela que guinda mulheres e homens mal intencionados ao topo de uma organização que se dedica ao cometimento de fraudes e desvios, serve igualmente para destituí-los dessas posições de comando.

Portanto, somos, como povo, os únicos verdadeiros detentores do poder de mudança das nossas próprias realidade e destino. Temos que nos desviar dessas distrações e falcatruas intelectuais e buscar a união pelo bem comum. Enfim, devemos reconhecer a enorme demanda por integridade que existe entre nós mesmos, o povo brasileiro, e entender que o divisionismo e a polarização exacerbadas interessam somente aos políticos criminosos que sequestraram o Brasil, e que o aprofundamento dessa situação só nos afastará das mudanças que queremos ver de fato implantadas em nosso país.

Pois bem, a Lava Jato é hoje uma grandeza abstrata inatingível, pois ela nos trouxe a consciência de que somos roubados por grande parte das nossas próprias elites políticas, detentores de um poder que deveria ser exercido em nosso nome e interesse.

Enfim, só haverá o tiro de misericórdia na operação se lograrem apagar definitivamente das nossas memórias todas as falcatruas que vimos desfilarem nas manchetes de jornais, todas as confissões detalhadas e comprovadas dos colaboradores e todos o bilhões de reais devolvidos pelos corruptos e corruptores.

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