A lição da Cúpula

Editorial de O Estado de S. Paulo (24/4/2021)

A Cúpula dos Líderes sobre o Clima foi bem-sucedida em seus objetivos. O presidente americano, Joe Biden, conseguiu recolocar os Estados Unidos na vanguarda da defesa do meio ambiente. E, além da vitória política da Casa Branca, a reunião internacional mostrou significativo consenso entre as lideranças mundiais a respeito das questões climáticas, o que é muito positivo para todo o planeta. O cuidado com a casa comum afeta todos.

Como um marco, a Cúpula dos Líderes sobre o Clima deixou claro que, no mundo atual, não há espaço para o negacionismo e a irresponsabilidade ambiental. E isso ficou muito claro no discurso do presidente Jair Bolsonaro, que inaugurou um novo tom em relação às questões ambientais.

Aquele que, em novembro do ano passado, ameaçou recorrer à pólvora para enfrentar os pedidos de maior responsabilidade com o meio ambiente – “apenas na diplomacia não dá”, disse Jair Bolsonaro – agora elogiou os esforços internacionais para reduzir o aquecimento global.

Aposentando o discurso negacionista bastante reprisado até aqui, o presidente Jair Bolsonaro lembrou: “Não podemos esquecer a causa maior do problema: a queima de combustíveis fósseis ao longo dos últimos dois séculos”. Reconheceu também que o Brasil tem “responsabilidades comuns”, cabendo-lhe “colaborar com os esforços mundiais contra a mudança do clima”.

Certamente, são pontos óbvios, mas o fato é que o governo de Jair Bolsonaro vinha não apenas negando o óbvio, mas descumprindo suas responsabilidades básicas. Por exemplo, o governo federal tem sido omisso no combate do desmatamento ilegal. Ou seja, não cumpre a lei de seu próprio país.

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A imagem de pária internacional do Brasil na questão ambiental não foi obtida por Jair Bolsonaro em razão do descumprimento de complexos tratados internacionais, por exemplo, por não implementar uma sofisticada política de baixo carbono. O problema do governo Bolsonaro tem sido de outra ordem: tolerância e até mesmo defesa do desmatamento ilegal, passividade diante das queimadas, sucateamento dos órgãos de controle ambiental e rejeição da colaboração de outros países na proteção da Amazônia.

Diante dessa realidade, o discurso de Jair Bolsonaro, prometendo, por exemplo, antecipar para 2050 o prazo para zerar as emissões de gases do efeito estufa, suscitou elogios. O enviado especial dos Estados Unidos para questões climáticas, John Kerry, avaliou a fala de Bolsonaro como “muito boa”.

No encerramento do evento, Joe Biden expressou esperança de que desavenças políticas não impeçam o trabalho conjunto para conter a mudança climática. “O presidente Putin e eu temos nossas desavenças, mas as duas nações podem cooperar para que algo seja feito. Estamos muito animados com o apelo dele de ontem (dia 22) para que o mundo colabore na redução de carbono”, disse Biden, que acrescentou: “Também ouvimos notícias encorajadoras de Argentina, Brasil, África do Sul e Coreia do Sul”.

Mas as palavras de Jair Bolsonaro na Cúpula não apagaram seu histórico de irresponsabilidade ambiental. Como disse o porta-voz do Departamento de Estado americano, o tom de Bolsonaro foi “positivo e construtivo”, mas a credibilidade do discurso depende de resultados concretos.

A confiança no novo tom de Jair Bolsonaro em relação ao meio ambiente não depende de metas distantes, para as próximas décadas. É preciso mudar imediatamente a ação do governo federal e que isso se reflita, por exemplo, em efetiva redução do desmatamento neste ano. Até aqui, os resultados são assustadores. No mês de março, houve aumento de 216% do desmatamento da Amazônia em relação ao mesmo período no ano passado.

As mudanças climáticas trazem riscos para todos os países. Nenhum pode se sentir excluído da responsabilidade de conter o aquecimento global. Ao mesmo tempo, como foi lembrado ao longo de toda a Cúpula, o desafio ambiental traz oportunidades de investimentos, inovação tecnológica e criação de empregos. Maltratar o meio ambiente é maltratar o presente e o futuro do País. Chega de irresponsabilidade e ignorância.

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