A mística (por Otávio Santana do Rêgo Barros )

Diversas forças armadas, mundo afora, possuem em suas estruturas organizacionais agrupamentos de tropas e equipamentos destinados ao cumprimento de missões com características distintas das convencionais.

Seus integrantes são reconhecidos por suas habilidades técnicas, disposição inabalável de cumprimento do dever e, não raras vezes, pela aceitação do sacrifício de suas próprias vidas.

Os mais aficionados estudiosos do tema os conhecem como tropas especiais. Apenas como referência, citamos os SEALS nos Estados Unidos, os SAS no Reino Unido, os SPETSNAZ na Rússia, os GUERRA NA SELVA e os FORÇAS ESPECIAIS no Brasil. E, de uma maneira geral, os paraquedistas em todas as forças armadas.

Esses grupos adquirem as capacidades física, emocional e intelectual que os habilitam a serem infiltrados na retaguarda inimiga em missões pontuais, isoladas, que exijam muita determinação, audácia e adestramento, em benefício do conjunto.

O resgate de reféns em Entebe, por forças israelenses; a operação “Market Garden”, na Segunda Guerra Mundial; e o sacrifício francês em Dien Bien Phu são exemplos clássicos de operações desenvolvidas por esses especialistas.

No Rio de Janeiro, uma cobertura televisiva maciça, mostrou ao público mundial a Brigada de Infantaria Paraquedista executando o cerco e o investimento aos complexos do Alemão e da Penha, na crise de segurança pública em 2010.

Essas tropas incorporam uma mística cunhada e preservada ao longo do tempo com o intuito de potencializar o espírito de corpo e, ao mesmo tempo, gerar instabilidade nos potenciais adversários.

Os ingleses, quando da operação de retomada das Ilhas Malvinas, em 1982, sobressaíram a incorporação de batalhões Gurkhas no desembarque, ressaltando a habilidade desses lendários soldados no emprego das facas Kukry, particularmente durante os combates aproximados. Mística centenária que gerou receio aos adversários instalados nas trincheiras geladas da região.

Depreende-se, portanto, que essas organizações não podem nem devem abdicar de treinamento contínuo, severo e aplicado para o cumprimento de seus propósitos operacionais. Não há tempo para tergiversações não profissionais.

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O ajuntamento de pessoas no último domingo (21.03.21), ao longo da avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca, identificados pelos meios de comunicação como paraquedistas em desfile para homenagear autoridade, não pode ser relacionado às tropas especiais brasileiras e às suas místicas.

Eram cidadãos, no exercício dos seus direitos de ir e vir, ainda que afrontando normas sanitárias legais vigentes na ocasião, que decidiram pelo pitoresco encontro dominical.

Que se afaste de pronto qualquer tentativa de relacioná-los com o Exército Brasileiro.

O Exército é uma instituição de Estado e constantemente assevera esse conceito para mais amalgamá-lo junto à população brasileira. Ele não referendou, nem referendará atitudes que afrontem, por seu posicionamento, a estabilidade, a legalidade e a legitimidade junto à nação brasileira. Age, como consequência dessa postura, no total acatamento aos ditames constitucionais.

A política do Exército vem prevalecendo sobre a política no Exército com a firme e sensível condução dos atuais chefes militares, herdeiros de nobres tradições e sólidos exemplos.

Acredito, em foro íntimo, que declarações políticas que tentem tragar a Instituição, sofrem claro e forte repúdio da maioria de seus integrantes, já imunizados contra essa cantilena, em especial nos momentos tão sensíveis pelos quais o país ultrapassa de crise pandêmica.

Estaremos sempre prontos a compartilhar com a sociedade o nosso preparo técnico-profissional reconhecido, de há muito, como politicamente isento e socialmente abrangente. Prisioneiros de um único adágio: serviremos com grandeza ao povo brasileiro.

Paz e bem!

 

Otávio Santana do Rêgo Barros é general do Exército e ex-porta-voz da presidência da República. Escreve aqui às quartas-feiras 

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