A natureza é implacável

Editorial de O Estado de S. Paulo (9/4/2021)

O presidente Jair Bolsonaro foi na quarta-feira a Chapecó (SC) para prestigiar o prefeito local, João Rodrigues (PSD). Segundo Bolsonaro, Rodrigues é um “exemplo a ser seguido” por ter apostado no “tratamento precoce” – codinome bolsonarista para a prescrição médica de remédios sem efeito contra a covid-19 para pacientes internados com a doença.

Para ilustrar o “exemplo”, a prefeitura de Chapecó divulgou um vídeo, compartilhado pelo perfil oficial do Palácio do Planalto, que distorce números para alegar que a adoção do “tratamento precoce” reduziu a internação hospitalar e, por isso, a cidade “venceu a covid”, nas palavras do prefeito. A encenação omitiu que a queda momentânea de internações ocorreu depois da decretação de duras medidas restritivas, que muitos pacientes tiveram que ser transferidos para o Espírito Santo porque não havia mais vagas de UTI e que a média de mortos na cidade é maior que a média nacional.

No discurso em Chapecó, Bolsonaro, como já se tornou habitual, distorceu ou simplesmente inventou informações para sustentar seu negacionismo, não falou de vacinas, a não ser para dizer que “não tem para todo mundo”, e atacou as medidas de isolamento adotadas por governadores. Recorde-se que Bolsonaro é formalmente o coordenador do Comitê de Combate à Covid-19, o que por si só deveria colocar em dúvida a serventia desse colegiado.

Horas depois, esse mesmo Bolsonaro se encontrou com empresários em São Paulo. Levou consigo um séquito composto por alguns dos mais importantes ministros do governo. A mise-en-scène serviu para denotar a importância que dava à reunião – realizada alguns dias depois da divulgação de um duro manifesto de empresários, banqueiros e economistas que criticavam a condução da crise pelo presidente e cobravam de seu governo a adoção de amplo programa de vacinação e a coordenação nacional de medidas preventivas e de distanciamento social.

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O encontro, portanto, deveria servir para mostrar que há sintonia entre Bolsonaro e o empresariado, ao contrário do que sugere o manifesto, e que o presidente está comprometido com a criação de condições para a superação da pandemia e com a recuperação econômica do País. Na prática, contudo, a reunião com os empresários em São Paulo – nenhum deles signatário do manifesto crítico e quase todos simpáticos ao presidente – foi apenas mais um dos comícios de Bolsonaro, com direito a ataques a seus desafetos, em especial governadores.

Consta que Bolsonaro foi “ovacionado” pelos empresários presentes no único momento em que falou de vacinação, prometendo acelerá-la, e também quando fez vagas promessas de respeitar o teto de gastos e as leis fiscais. O presidente tampouco lembrou das prometidas reformas, embora seja uma das pautas mais relevantes para o setor produtivo, mas encontrou tempo para atacar a imprensa e o PT.

Assim, seria preciso um grande esforço para ver ali um governante comprometido com o combate à pandemia e com o futuro do País. A natureza é implacável. Por mais que se esforce, Bolsonaro não consegue se passar por presidente porque é mau ator, o que fica claro mesmo diante de uma plateia complacente.

Da parte do presidente, o evento serviu somente para fingir afinidade com o empresariado. Seu menosprezo pela vacina e pelas medidas preventivas contra a covid, únicas formas de superar a pandemia e retomar a economia, já havia ficado claro horas antes em Chapecó. É exatamente por isso, aliás, que governadores e prefeitos, tão hostilizados pelo presidente, vêm se mobilizando para conseguir vacinas, já que Bolsonaro mais atrapalha do que ajuda.

Da parte dos empresários presentes, contudo, houve um esforço para indicar confiança no presidente ao final do encontro. “Foi uma conversa boa, eu gostei, me deu tranquilidade”, disse um deles ao Estado.

É reconfortante saber que alguém no País está tranquilo, mesmo diante da escalada da pandemia e da evidente incapacidade do poder público, sobretudo do governo federal, de enfrentá-la. Milhões de brasileiros que estão vivendo sob o espectro da morte, da fome e do desemprego infelizmente não podem dizer o mesmo.

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