A república da mentira (por Mary Zaidan)

A 18 meses da eleição presidencial, a escolha entre o péssimo e o menos ruim volta a assombrar. Mais do que o dilema entre um representante de direita e outro de esquerda – o que poderia ser saudável -, até então a escolha opõe dois candidatos que se acham acima de tudo e todos, têm a mentira como método e comprovada habilidade de cegar seus fiéis. A semana passada foi mais uma prova disso: o presidente Jair Bolsonaro virou guardião da floresta e o ex Lula o homem mais honesto da face da Terra.

Ao falar na Cúpula do Clima, Bolsonaro defendeu tudo aquilo que ele não faz e manda quem faz desfazer: combate incansável ao desmatamento ilegal e investimento em dobro em fiscalização. Não fosse pelo tatibitati da leitura, sem as inflexões exigidas para dar consistência à narrativa, poderia se dizer que o texto fora lavrado por gente do porte de Marina Silva.

Menos de 24 horas depois, o orçamento de 2021 arreganhou o corte de R$ 240 milhões no Ministério do Meio Ambiente, parte significativa na área de fiscalização, nos já desmontados Ibama e ICMbio. Em investimentos, dobrou-se o zero.

O orçamento, que inviabilizou a realização do Censo neste ano e praticamente extinguiu o programa de habitação popular, escancarou mais mentiras, algumas de envergonhar Pinóquio. Bolsonaro, que na sua nova persona em favor de vacinas disse que não falta dinheiro para comprá-las, vetou R$ 200 milhões para o imunizante 100% nacional desenvolvido pela USP de Ribeirão Preto, recursos prometidos por seu ministro de Ciência e Tecnologia, o astronauta Marcos Pontes. Cortou R$ 2,2 bilhões na Saúde e autorizou que o repasse de recursos seja feito a conta-gotas mesmo para questões emergenciais como compra de kits para intubação.

Não há dedos que cheguem para contar as mentiras de Bolsonaro, nem mesmo se limitarmos o tempo em uma única semana. Com Lula não é diferente.

Aliviado com as decisões camaradas do STF, que, passados dois anos e meio, entendeu que tudo que havia entendido até agora estava errado, Lula propagou a todos os cantos que a Justiça foi feita com o reconhecimento de sua inocência. Mentira deslavada. Mas que pega, por má-fé de quem a prega. Calúnia fácil diante da barafunda jurídica do país, boa parte dela patrocinada pela Corte Suprema.

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Lula continua réu nas quatro ações que estavam em Curitiba. De concreto, obteve vitórias moral e política que o permitem, como fênix, ressuscitar das cinzas.

Ainda que liberado por hora do processo do triplex do Guarujá, que voltou à estaca zero, Lula não terá como se livrar da reforma do apartamento que ele diz que não era dele, mas que Léo Pinheiro, da OAS, jura que comprou para ele. Do elevador interno e da cozinha kitchen replicada no sítio de Atibaia, que Lula também diz que não era dele, embora jamais tenha sido frequentado pelo pseudo-dono, o amigo Fernando Bittar. Também não foi para Lula que a enrolada Oi – a mesma que fez mimos milionários para o Lulinha – instalou uma ERB nas proximidades do sítio, conhecida pela vizinhança como “antena do Lula”.

Nem Lula nem o PT lucraram com os milhões pagos a mais para empreiteiras líderes, regiamente devolvidos para financiar campanhas, correligionários, amigos e luxos, detalhados tintim por tintim por Marcelo Odebrecht. No Distrito Federal, o ex é réu em outros três processos, um deles cabeludíssimo, derivado da Operação Zelotes, no qual Lula responde ao lado do filho Luis Claudio. Envolve desvios e benefícios na compra de aviões-caças e na edição de uma Medida Provisória que prorrogou regalias para montadoras.

O rol de mentiras do ex é extensíssimo. Fala e faz o que agrada o cliente da vez para satisfazer a sua necessidade imediata. Agora, Lula tenta se reinventar como político de centro, despido do discurso radical que, no momento, ele considera impróprio. A ordem é não demonizar as elites, os empresários, a mídia, em especial a TV Globo, emissora que foi alvo do ódio dos petistas e agora encarna o diabo para os bolsonaristas.

Nas redes sociais, ambiente que explicita com mais clareza o baixo calão da disputa, a polarização Bolsonaro versus Lula se intensifica. Nada de ideias, propostas, nenhuma preocupação com o país, nem um milímetro de inteligência. É uma guerra entre quem mente mais e melhor.

Um digladio barato que empobrece a política e reduz as chances de soluções para a tríplice crise – sanitária, econômica e social. Passa da hora de o país se livrar dessa amaldiçoada equação binária e dar musculatura a uma terceira força. Do contrário, a república da mentira continuará a prosperar.

Mary Zaidan é jornalista

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