A revolta de Bolsonaro com a imprensa que não lhe diz amém

Nada a estranhar quando Jair Bolsonaro, em visita ao Acre onde 10 cidades estão debaixo de água, encerrou abruptamente uma entrevista à imprensa ao lhe perguntaram sobre a decisão do Superior Tribunal de Justiça de anular o processo a que responde o senador Flávio “Rachadinha” Bolsonaro, acusado de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

“Acabou a entrevista aí”, disse o presidente. Deu as costas aos jornalistas e abandonou o local, acompanhado de sua numerosa comitiva. À saída, cochichou alguma coisa ao general Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, que parecia aborrecido e o seguiu com as mãos nos bolsos, balançando a cabeça. O general também não gosta de ouvir perguntas incômodas. Quem gosta?

Mas jornalista existe para perguntar, investigar e publicar o que for relevante. Ao fazê-lo, não atende apenas à própria curiosidade, o que seria natural, mas à necessidade de informações do distinto público a quem ele se reporta. Autoridade deve satisfações. Tanto mais um presidente cujas palavras e atos influenciam fortemente a vida dos seus governados e os destinos do país.

Se o desprezo de Bolsonaro pela imprensa ficasse só por aí, até se toleraria, mas não. Quantas vezes ele já não mandou, aos berros, jornalista calar a boca? Pelo menos uma vez ameaçou encher de porrada a boca de um jornalista. Nunca antes na história deste país se viu nada igual. Nunca se viu um presidente empenhado em jogar seus seguidores contra a imprensa para desacreditá-la.

Em livros sobre seus anos como presidente da República, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso registrou inúmeras vezes o quanto o trabalho da imprensa o deixou indignado. Nem por isso pediu a cabeça de jornalistas aos seus patrões, nem tentou silenciá-los. Tampouco os presidentes que o seguiram – Lula, Dilma e Temer. Bolsonaro quer uma imprensa domesticada.

Parte da imprensa se dispõe a obedecê-lo. Mas como a parte que resiste é a mais aguerrida e a que mais repercute, ele não se conforma. Daí seus insultos, grosserias e imprecações diárias. Daí seu declarado desejo de pôr dinheiro em veículos que lhe dizem amém e em tirar dos que lhe dizem não, ou não é bem assim, ou vá devagar. Até já nominou os veículos que gostaria de ver fechados.

Não prevalecerá. Censura nunca mais. Ditadura nunca mais.

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