Adesão às manifestações de rua aumentou a preocupação de Bolsonaro

Há uma diferença considerável entre o que Jair Bolsonaro diz em público e o que ele fala em privado, exatamente como ocorre com boa parte dos presidentes da República. Na segunda-feira 31 de maio, o ex-capitão desdenhou das manifestações populares realizadas em todo o país que defendiam o seu impeachment e mais vacina contra a Covid-19. “Você sabe porque deu pouca gente nessa manifestação da esquerda agora nesse fim de semana? Porque a PF (Polícia Federal) e a PRF (Polícia Rodoviária Federal) estão apreendendo muita maconha pelo Brasil. Faltou erva para o movimento aí”, disse Bolsonaro no conforto de seu cercadinho no Palácio da Alvorada.

Em conversas reservadas, no entanto, o presidente se mostrou preocupado com a quantidade de manifestantes nas ruas. A adesão ao ato reforçou em Bolsonaro a percepção de que a campanha presidencial será duríssima, análise que é compartilhada por alguns de seus principais conselheiros políticos. Esse grupo trabalha para manter o apoio do Centrão ao mandatário no Congresso e na eleição de 2022, o que garantiria a Bolsonaro a maior fatia de recursos dos fundos partidário e de financiamento eleitoral e também de tempo de propaganda no rádio e na TV.

Outra preocupação dos bolsonaristas, bem mais urgente, é acelerar medidas que sejam capazes de melhorar o humor de fatias importantes do eleitorado. Uma delas é a ampliação do Bolsa Família. A meta é ambiciosa: dobrar o número de beneficiários e o próprio valor do benefício. A ala política do governo considera que o ministro da Economia, Paulo Guedes, o dono da chave do cofre, já entendeu do que o chefe precisa. Vem mais gasto público por aí — e dos grandes. Afinal, como o próprio Guedes disse, é hora de partir para o ataque.

De olho no voto do eleitor médio, os governistas também deflagrarão uma derradeira ofensiva para tentar aprovar a reforma administrativa, alguma coisa que possa ser vendida como reforma tributária, além das privatizações da Eletrobras e dos Correios. O esforço será feito “apesar de Bolsonaro”, que só é entusiasta da agenda liberal da boca para fora. A ideia dos aliados é abrir para o presidente mais um flanco no qual ele possa se contrapor a Lula, que tem pregado contra as reformas e as privatizações.

Atrás do rival petista nas pesquisas e com o governo reprovado por metade da população, Bolsonaro estima ter um potencial de cerca de 40% dos votos. Ele costuma dizer que esse porcentual é garantido por nichos como evangélicos, caminhoneiros, ruralistas etc. É nesse balaio que ele aposta para conquistar uma vaga — que hoje parece assegurada — no segundo turno. A aposta nos nichos é pesada, como demonstra sua intenção de indicar um nome “terrivelmente evangélico” para o Supremo Tribunal Federal (STF).

Para os políticos profissionais que o presidente trouxe para o governo, Bolsonaro precisa falar para além dessa bolha e atrair o eleitor médio, aquele que torce por uma terceira via que nunca chega. A defesa que o ex-capitão fez da vacinação em rede nacional de rádio e TV na quarta-feira passada foi um passo nesse sentido, mas até aliados sabem que, por ser tardio, pode não ter o efeito esperado. A reeleição, diz-se no Planalto, não será fácil. O próprio Bolsonaro admite isso.

Ultimas notícias

Criador do antívirus McAffe é encontrado morto em prisão de Barcelona

John McAfee, criador do programa de antivírus para computadores que leva seu sobrenome, foi encontrado morto nesta quarta-feira, 23, em uma cela em Barcelona,...

‘Governo vai desmoronar’, diz Aziz às vésperas de depoimento sobre Covaxin

Presidente da CPI da Pandemia, o senador Omar Aziz (PSD-AM) disse a interlocutores estar convicto de que a comissão de inquérito chegou enfim a...

Mudanças climáticas farão milhões de vítimas, diz relatório da ONU

Um esboço de um relatório do Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC), um órgão de caráter consultivo da Organização das Nações Unidas para...

Um tiro no Planalto

De duas, uma: ou o Palácio do Planalto tem uma história muito bem contada e comprovada para desmontar a denúncia do deputado Luís Miranda...

Deputado que alertou Bolsonaro sobre Covaxin terá proteção da CPI

Após as entrevistas do deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) sobre o alerta que ele e seu irmão fizeram ao presidente Jair Bolsonaro sobre suspeitas...