As críticas de tucanos a “exageros” de João Doria com a vacina

Visto com reservas por uma ala do PSDB desde o estremecimento de suas relações com o ex-governador Geraldo Alckmin e o “Bolsodoria” da eleição de 2018, o governador de São Paulo, João Doria, passou a enfrentar nos últimos uma oposição interna mais estridente, depois que tentou, sem sucesso, aumentar seu cacife dentro da sigla. Diante da vitória do bolsonarista Arthur Lira (PP-AL) na eleição à presidência da Câmara, com votos tucanos, Doria chegou a declarar que parlamentares “dissidentes” tivessem a “dignidade” de deixar a legenda, enquanto aliados seus iniciaram um movimento para que ele assumisse a presidência do PSDB. A declaração pegou muito mal internamente e a pretensão de presidir a legenda foi um tropeço importante, que provocou alguns arranhões em seu projeto político para 2022 – ainda fortíssimo, diga-se. O governador não só não assumiu o cargo como viu o ex-ministro Bruno Araújo ser reconduzido por unanimidade e sem sua influência – Doria havia sido decisivo para a chegada de Araújo ao comando tucano, em 2019 – e colocou de vez o nome do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, na disputa pela candidatura do PSDB à presidência da República, com apoio de ala importante da legenda.

Diante do que classificam como erros por pura inabilidade política de Doria, tucanos graúdos têm feito críticas ao modo como o governador comunicou seu mais notável feito até aqui e maior trunfo para ser escolhido presidenciável: a parceria entre o Instituto Butantan e a chinesa Sinovac para a produção da CoronaVac, vacina contra o coronavírus mais utilizada até o momento no Brasil, movimento que contrastou sua postura com o imobilismo irresponsável do governo do presidente Jair Bolsonaro.

Reservadamente, esses correligionários de João Doria veem “exageros” e “oportunismo” no modo como ele buscou atrelar-se à vacina para contrapor Bolsonaro, ainda que reconheçam a competência do governador paulista na operação, que foi fundamental para o Brasil iniciar seu plano de imunização. “Uma coisa é dizer ‘fui à China, busquei a vacina, estou à disposição, ponto’. Outra coisa é dizer ‘está aqui a vacina e aquele genocida não comprou outras. Se não fosse eu…’ As pessoas têm um grau de inteligência emocional, tem essa percepção da troca, de que ele foi buscar a vacina em troca de algo”, diz um dirigente do PSDB. “Ele abusa tanto, exagera tanto no tom, que para a população gera uma espécie de oportunismo, como se fosse um mero instrumento. É um marketing, uma coisa tão produzida, que fica artificial”, afirma um importante deputado do partido.

Principal adversário interno à postulação de João Doria pela candidatura ao Palácio do Planalto em 2022, Eduardo Leite reconhece que o colega tem “muito mérito” na atuação de ter feito contatos e parcerias para trazer a vacina da China, mas vê efeitos negativos do que chamou de “alta exposição política” durante as negociações do imunizante entre o Instituto Butantan e o governo federal. “A alta exposição política acabou gerando uma guerra que não interessava a ninguém. Tem que focar em resultado e entrega e, depois do resultado, é legítimo que se faça a exposição política. Mas no curso das negociações talvez tenha havido um excesso”, afirma o governador a VEJA, que em reportagem da edição desta semana mostra como Leite surge como alternativa a Doria no tucanato.

Os críticos à postura de João Doria no PSDB avaliam que a rejeição ao nome dele à direita, em função da oposição cerrada a Bolsonaro, torna ainda mais difícil a missão de recuperar votos do partido que migraram ao bolsonarismo em 2018. Segundo esses tucanos, a vacina pode dar a Doria alguma melhora em pesquisas eleitorais para 2022, mas há um risco de que seja um salto aquém do esperado – o governador paulista não chegou à casa dos dois dígitos em nenhum levantamento até aqui. “Ele é muito rejeitado, à esquerda e à direita. Eu não quero postar uma foto com Doria no meu Instagram, eu e ele, mesmo ele sendo o cara da vacina”, critica um dos parlamentares tucanos ouvidos por VEJA. “Doria deve ter algum crescimento com a vacina, mas não do tamanho que poderia se tivesse calibrado corretamente. Se Lula tivesse nas mãos o feito de ter viabilizado a vacina, ele tomava o lugar do Papa Francisco”, ironiza um dirigente do partido.

Pelos lados de João Doria, aliados dele veem na vacina uma importante vitória política dele contra Bolsonaro e ressaltam a busca para que o PSDB se firme como oposição clara ao governo do capitão. Um dos auxiliares mais próximos ao governador paulista afirma que a definição do candidato à presidência será por pesquisas e que Doria pode até não decolar, mas Leite menos ainda, à medida que o imunizante seria um ativo muito mais atrativo do que as medidas de austeridade promovidas pelo gaúcho para sanear as contas do Rio Grande do Sul. Com prévias se desenhando no horizonte tucano, o partido pretende definir seu candidato à Presidência até um ano antes do pleito de 2022. “Se tiver mais um candidato é normal, não tem problema, o PSDB é um partido grande e forte. E o Doria já tem experiência com prévias, já ganhou duas”, diz Marco Vinholi, secretário de Desenvolvimento Regional do governo Doria e presidente do PSDB paulista.

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