Audiência no Senado mostra abandono de Ernesto Araújo e complica assessor

A ausência praticamente completa de senadores da base do governo Jair Bolsonaro durante a sessão em que o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foi instado diversas vezes a renunciar foi interpretada como um gesto claro de “abandono”. Em convocação ocorrida nesta quarta-feira, dia 24, Araújo foi junto com o assessor internacional da Presidência, Filipe Martins,  à Casa Legislativa para dar explicações sobre os atrasos nas negociações de vacinas e insumos com outros países. E saíram de lá mais queimados do que estavam antes.

Senadores classificaram as falas deles como “prepotentes” e a gota d’água para a queda dos dois auxiliares do governo, que já vinha sendo pedida há meses. A diferença é que agora a demissão passou a ser defendida abertamente pelos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e, de forma mais discreta, pelo ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos.

Para aumentar as críticas, Martins fez um gesto ontem durante a sessão — atrás de Pacheco, enquanto o presidente da Casa falava — que alguns senadores atribuíram ao movimento supremacista branco. O episódio repercutiu muito mal entre os parlamentares, e Pacheco pediu à Polícia Legislativa para investigar o caso. Nas redes, Martins explicou  que só estava ajeitando a lapela do terno.

O assessor internacional de Bolsonaro, Filipe Martins, faz gesto considerado supremacista enquanto o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), falavaMarclo Camargo/Agência Brasil

Nem o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) nem os líderes do governo, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) e Eduardo Gomes (MDB-TO), apareceram para defender o chanceler na sessão. A única exceção foi o senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR), que praticamente foi ofuscado pela fala da maioria dos parlamentares de todos os partidos que assumiram o microfone para pedir a saída de Araújo do ministério.

“Por favor, chanceler, ponha a cabeça no travesseiro, pense com consciência, se não valeria a pena o senhor abrir mão desse cargo. Eu tenho certeza de que agora, para o Brasil, é melhor sem o senhor. Peça para sair e durma com a consciência tranquila, que o senhor vai ajudar a salvar vidas”, disse a senadora Mara Gabrilli (PSDB-SP).

Um dos únicos que continuam apoiando firme e forte Ernesto Araújo e Filipe Martins é o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho Zero Três do presidente da República e que hoje tem grande influência sobre as decisões do Itamaraty. Nesta quinta-feira, dia 25, ele fez postagens defendendo a dupla nas redes sociais.

Mesmo que Bolsonaro opte por manter Ernesto Araújo no cargo, o Senado já estuda iniciar um processo para sufocar as atividades do Itamaraty. A Comissão de Relações Exteriores da Casa, agora presidida por Kátia Abreu (MDB-TO), poderá bloquear as indicações de embaixadores e convocar de forma sucessiva o chanceler e outros representantes do ministério para prestarem esclarecimentos. A comissão também tem a prerrogativa de requerer informações e documentos do Itamaraty, o que pode se converter em mais uma fonte de desgaste e constrangimento para a pasta.

Embaixadores dizem que ficaram calejados nos últimos dois anos com os seguidos boatos de que Ernesto está balançando no cargo. Dessa vez, no entanto, eles admitem que os rumores estão mais fortes do que nunca. Em condição reservada, embaixadores afirmaram que existe uma grande torcida no meio diplomático para que a demissão seja consumada.

Há profunda irritação da parte de líderes do Congresso, incluindo os presidentes das duas Casas Legislativas, com a falta de interlocução do Itamaraty com a China, de onde provêm os insumos para fabricação de vacinas contra a Covid-19. Ernesto sempre se colocou como um crítico do país asiático e já chamou a Covid-19 de “comunavírus”.

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