Bolsonaro e a lógica da contradição

Logo depois de avisar que vai “meter o dedo” no setor elétrico, Bolsonaro mandou para o Congresso uma medida provisória para acelerar a privatização da Eletrobrás.

Logo depois de intervir na Petrobras com o objetivo escancarado de controlar preço, Bolsonaro declarou que não vai interferir na política de preços da empresa.

Logo depois de atropelar Guedes, deixando claro que ele não manda nada, Bolsonaro elogiou o ministro e declarou que ele “decide as finanças no governo”.

O comportamento de Bolsonaro parece esquizofrênico — mas não é. Ou talvez seja, mas isso não é problema, é solução.

A fragmentação da informação nas redes faz com que cada um só preste atenção na parte do discurso que lhe interessa, o que permite que políticos populistas sejam contraditórios sem sofrer o desgaste que seria de se esperar (Giovanni Da Empoli batizou o fenômeno de “política quântica”).

Caminhoneiros só prestam atenção em “aumento no diesel não se justifica”. Nacional-desenvolvimentistas só prestam atenção em “o petróleo é nosso”. Militares só prestam atenção na nomeação do general. O mercado financeiro só presta atenção no “não vou interferir na política de preços” e “Guedes manda nas finanças”. (A imprensa presta atenção em tudo, mas ninguém presta muita atenção nela, porque o populista quântico a desconstrói 24 horas por dia.)

E não adianta dizer que só gente pouco inteligente ou pouco estudada cai no truque: cansamos de ver médicos defendendo “tratamento precoce” e MBAs do mercado financeiro elogiando uma “política liberal” que nunca existiu. Não é por acaso que o pior presidente da história, mesmo com pandemia e alto desemprego, continua com alta popularidade.

Estrangeiros, claro, estão mais imunes à “política quântica” brasileira, e são unânimes em achar que aqui tudo está péssimo.

Mas estrangeiros não votam.

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