Bolsonaro e Lula provocam rearrumação de forças políticas no Rio

A guerra eleitoral entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para 2022 tem provocado uma rearrumação de forças políticas no Rio de Janeiro. Após a saída de cena do ex-governador Sérgio Cabral e do ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alerj) Jorge Picciani, ambos do MDB e presos na Operação Lava-Jato, dois outros personagens centrais surgem no estado com poderes para mover as peças do xadrez: Valdemar da Costa Neto, presidente nacional do PL, e Gilberto Kassab, dono do PSD e ex-prefeito de São Paulo. Alvo de escândalos de corrupção, a dupla, agora, abriga caciques fluminenses em seus respectivos partidos e atua nos bastidores para costurar alianças de olho na briga pelo Planalto.

Na última quarta-feira, Bolsonaro participou, em Brasília, da filiação do governador do Rio, Cláudio Castro, que deixou o PSC, e aterrissou no PL de Valdemar. O encontro não estava na agenda oficial. No discurso, o presidente não descartou a ida para o partido. “Ainda estou me decidindo”, afirmou. Sem palanque definido no estado, seu berço eleitoral, Bolsonaro sinaliza pelo apoio à reeleição de Castro. Segundo interlocutores, no entanto, ele ainda não bateu o martelo. “O Bolsonaro está buscando nomes alternativos para disputar o governo no Rio. Se não conseguir até lá, a tendência é que ele fique mesmo com Castro”, contou um parlamentar alinhado com a família presidencial. O PL faz parte do chamado Centrão e está na base do governo federal no Congresso. No Rio, Valdemar delega ordens ao deputado federal Altineu Côrtes, seu braço-direito e presidente regional do partido.

Após assumir o comando do Palácio Guanabara, Castro tem mostrado alinhamento com o clã Bolsonaro. Ele abriu as portas do governo para nomear bolsonaristas, principalmente na área da Segurança Pública. Até então, Castro estava filiado ao PSC, do ex-governador Wilson Witzel, que sofreu impeachment por suspeita de corrupção. As negociações para a filiação no PL foram feitas diretamente com Valdemar da Costa Neto. Além de filiar o governador, a legenda conta com dois dos três senadores do Rio – Romário e Carlos Portinho. Se Bolsonaro optar pela sigla, o senador Flávio Bolsonaro, atualmente sem partido, também poderá embarcar com o pai.

Ex-deputado federal, Valdemar da Costa Neto foi condenado e preso no esquema do mensalão do PT durante o governo Lula. Mesmo detido, ele nunca abriu mão de controlar o PL, como revelou VEJA em 2 de abril. No governo Dilma Rousseff (PT), em troca de apoio político, continuou dando as cartas no Ministério dos Transportes, a raiz de um novo e barulhento escândalo de corrupção. Na Lava-Jato, foi acusado por um empreiteiro de cobrar propina para “abrir portas” em Brasília. No ano passado, virou réu por peculato, corrupção passiva e fraude em licitação, acusado de participar de um esquema de desvio de dinheiro nas obras da Ferrovia Norte-Sul.

Frente contra o presidente

Enquanto isso, Lula também se movimenta no Rio. No mês passado, o ex-presidente se encontrou com Gilberto Kassab. Até então aliado de Bolsonaro, Kassab possui cargos no governo federal. O principal deles é o comando da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), que possui um orçamento aprovado de cerca de 2,7 bilhões de reais para 2021. Lula esteve ainda com o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia, ex-DEM. Nos diálogos, Lula teria pedido unidade no estado para que Bolsonaro fosse derrotado em seu reduto eleitoral. O ex-presidente também indicou a intenção de apoiar o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL) ao governo fluminense na eleição do ano que vem.

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Na quarta-feira, 26, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (ex-DEM), assinou, em Brasília, a sua ficha de filiação ao PSD de Kassab. Paes é ex-aliado de Cabral e Picciani. No encontro, que contou com a presença de deputados e senadores, Paes elogiou os ex-presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso (PSDB), o que reforça a tendência do PSD de se descolar de Bolsonaro. O prefeito lembrou a derrota, em 2018, para Witzel na disputa ao governo do Rio: “A partir de 2018, explode esse jogo de ódio, de quem xinga mais quem, de quem tem mais divergência, quando nosso papel é construir consenso. Disputei 2018, perdi para esse ódio”, disse.

Paes já trocou farpas com o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente, nas redes sociais. Sem citar Bolsonaro, Paes é um crítico ao negacionismo da vacina no combate ao novo coronavírus. Em seu terceiro mandato no comando da capital, o prefeito chega ao PSD de Kassab com seu grupo político, incluindo Rodrigo Maia. A novidade, porém, é Felipe Santa Cruz, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Paes estuda lançá-lo ao governo do Rio. Santa Cruz acompanhou o evento e deve se filiar ao PSD, em fevereiro, quando deixar o comando da entidade.

Em fevereiro, a Polícia Federal indiciou Kassab pelos crimes de corrupção passiva, falsidade ideológica eleitoral, lavagem de dinheiro e associação criminosa. As investigações da Lava Jato em São Paulo foram iniciadas a partir de delações premiadas de acionistas e executivos do Grupo J&F. Em nota, a PF disse que, além das delações, foram realizadas “diversas outras diligências” como, por exemplo, quebra de sigilos bancários e fiscal dos investigados e de empresas e análise de material de busca e apreensão.

“O cenário eleitoral entre Bolsonaro e Lula no Rio, por enquanto, está indefinido. Bolsonaro se aproxima de Claudio Castro, que chegou ao poder por acaso e é um aliado de primeira mão do governo federal. Mas, até a eleição, poderá surgir um novo nome bolsonarista.  Por outro lado, uma candidatura deverá ser apoiada pelo Lula, possivelmente o Freixo, que terá o desafio de criar uma frente ampla contra o Bolsonaro. O PDT, do Ciro Gomes (pré-candidato a presidente em 2022), é outra incógnita”, analisa Felipe Borba, cientista político da Universidade Federal do Estado do Rio (UniRio).

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