Cai o mito do valentão (por Mary Zaidan)

Na semana do trágico 31 de março, data que desde os tempos de deputado Jair Bolsonaro glorifica, o presidente tentou endurecer com comandantes militares e acabou enquadrado pelas três Forças. Teve ainda de fazer novas mesuras ao Centrão para agradar o presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), que o ameaçou com o “sinal amarelo” do impeachment, e ao mensaleiro Valdemar da Costa Neto, dono do PL. Acuado, no dia seguinte aos 57 anos do golpe que pela primeira vez ele não comemorou, o “Rambo Bolsonaro” virou o que sempre foi: um sonoro 1º de abril.

Mas o escancaramento da fragilidade de Bolsonaro não o fará mudar. Sua obsessão por destruir o país para proteger a si e aos seus se manterá a todo vapor. Continuará usando a mesma tática miliciana da ameaça permanente. A única que ele conhece, que rendeu frutos para ele e os filhos, todos – exceto Jair Renan, que já já chega lá, e a jovem Laura – lançados precocemente pelo papai nas delícias da vida pública.   

A invertida que Bolsonaro tomou do ex-ministro da Defesa e dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, além da imposição dos critérios hierárquicos na indicação dos novos titulares, reforçou o papel institucional das Forças e expôs um cenário no mínimo curioso. Os militares, que já foram os bichos-papões, se tornaram defensores da democracia e das Forças Armadas como instituições de Estado, em contraponto a um presidente civil autocrata, que anseia por um Exército para chamar de seu.  

Nas redes sociais, o filho Eduardo até tentou manter o clima pró-64, com a publicação de um vídeo patético do pai, ao lado do irmão Flávio e dele, ao som de marcha militar e ditos em favor do golpe, com um surpreendente encerramento: “Brasil acima de tudo”, gravado em 2014.

Dizem, mas não há quem prove, que a força de Bolsonaro está nos baixos escalões das Forças Armadas e das Polícias Militares estaduais. De fato, é nessa turma que se concentra o empenho do presidente, nas dezenas de formaturas de jovens militares a que ele comparece e, mais gravemente, no reforço direto e indireto às tentativas de insurreições nas polícias estaduais. 

Agiu assim nos motins – que ele chamava de greves – de policiais do Ceará e do Espírito Santo. Tentou agora na Bahia, com sua militância virtual em ordem unida para transformar em herói um PM enlouquecido que abriu fogo contra seus pares em suposta defesa do fim das restrições à circulação determinada pelo governador.

Ainda que possam, hipoteticamente, serem seduzidos pelo blá-blá-blá bolsonarista, não é crível – e até então não mensurável – que jovens recrutas das Forças Armadas e das Polícias Militares prefiram uma aventura desvairada à estabilidade da carreira militar. Afinal, gente infame  – e “mau militar” – como o capitão Bolsonaro é exceção e não regra. 

Mesmo aquinhoados com reajustes, investimentos, assento em milhares de cargos no governo e todo tipo de privilégio, os fardados, como se viu, não parecem estar dispostos a aventuras. Portanto, representam baixo risco. O perigo reside nas armas em mãos de civis, autorizadas e estimuladas por Bolsonaro. 

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Para a montagem dessa tropa ele desrespeitou pareceres técnicos, retirou poderes de controle do Exército e da Polícia Federal. Mais do que triplicou a posse de revólveres, multiplicou por 10 o poder de fogo dos armamentos, a quantidade e letalidade das munições autorizadas para aqueles que possuem porte de armas, também facilitado. 

Muitos comparam o esquema miliciano bolsonarista ao que Hugo Chávez implantou na Venezuela. Mas Bolsonaro, felizmente, não tem a inteligência do líder bolivariano. Imita grosseiramente alguns fundamentos. Naufraga nas tentativas de aliciamento das Forças Armadas e da Justiça. Na política, come nas mãos do Centrão.

Por mais que force a barra, também não tem tido êxito na guerra cotidiana contra a imprensa, um dos eixos que impede golpismos e regimes de exceção. Já tentou calar a Folha de S. Paulo, demonizou o Estadão, o O Globo e a revista Veja. Seus fiéis mais afoitos chegaram a plantar boatos de que, a exemplo do que Chávez fez com a RCTV,  Bolsonaro não renovaria a concessão da TV Globo, que só vence depois de o mandato dele terminar.

Mas o presidente tenta as suas venezueladas. Cancelou, ilegalmente, a participação da Folha em licitação pública, estimulou empresários a não anunciar no jornal, ameaçou ministros que dessem entrevistas. Editou Medida Provisória, que caducou, liberando empresas de publicarem seus balanços em jornais. Na semana passada, ao sancionar a nova Lei de Licitações, no mesmo 1º de abril, vetou a obrigação de publicação dos editais de compras, serviços e obras no Diário Oficial da União e em jornais de circulação nacional. 

A nova tentativa de asfixiar os veículos de imprensa que o incomodam coincide com a gracinha feita para a TV Record. A partir de amanhã, a TV Brasil, que Bolsonaro jurou vender ou fechar durante a campanha de 2018, começa a exibir os 242 capítulos de “Os Dez Mandamentos”, comprados do bispo pela bagatela de R$ 3,2 milhões. Para agradar aliados, até pagar caro por reprise vale. 

As armações bestiais de confronto com militares podem até servir para desviar o foco das graves crises sanitária, econômica e social, das quais o presidente se esforça para tirar o corpo fora. Mas tanto os movimentos diversionistas como as artimanhas para calar a imprensa são inúteis. No Brasil real, com média de mais de 3 mil mortos por dia pela Covid-19, hospitais em pane com doentes amontoados, medicamentos para intubação e oxigênio no limite, miséria e fome, Bolsonaro não terá replay. Ou nem termina a primeira temporada. 

 

Mary Zaidan é jornalista 

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