Capitã Cloroquina: defensora radical do tratamento precoce vai hoje à CPI

A principal “estrela” desta semana na CPI da Pandemia é a secretaria de Gestão do Trabalho do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro. Mais conhecida como “Capitã Cloroquina” pela sua defesa radical do chamado “tratamento precoce”, ela irá prestar depoimento na sessão da comissão marcada para as 9h desta terça-feira, dia 25. Pediatra com especialização em neonatologia e experiência em UTIs, Pinheiro já havia ganho espaço no bolsonarismo por seu ativismo político na oposição ao programa Mais Médicos e à descriminalização do aborto. Durante a pandemia, virou uma das maiores divulgadoras dos remédios sem comprovação científica contra o coronavírus.

Ex-presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, Pinheiro nunca negou a sua veia política – já se candidatou a deputada federal e senadora pelo PSDB. Nesta terça, inclusive, ela encontrará dois ex-colegas de campanha, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), com quem participou de comícios em 2018; e o senador Eduardo Girão (Podemos-CE), com quem fez dobradinha na coligação naquele mesmo ano. Com este último, ela gravou um vídeo em julho de 2020 fazendo defesa enfática da aplicação da cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19. “Eu só queria lembrar que aquelas pessoas que se omitirem em disponibilizar a única medicação que a gente tem hoje, com resultados in vitro e bons resultados nos segmentos clínicos em todo o Brasil, em breve podem ser julgadas por um crime contra a humanidade, omissão de socorro”, diz ela, na gravação.

A secretária, que sobreviveu a três ministros da Saúde – Luiz  Mandetta, Nelson Teich e Eduardo Pazuello – continua firme e forte no posto na gestão de Marcelo Queiroga, de quem é considerada amiga. Ao levantar a bandeira do tratamento precoce, a médica também ganhou pontos com a ala mais ideológica do governo Bolsonaro. Ela também obteve crédito com a sua oposição de longa data aos governadores do Nordeste, cuja maioria é de partidos de esquerda, que fazem críticas recorrentes à gestão do presidente na pandemia – ela já foi filiada ao PSDB e ao Novo. Na eleição municipal de 2020, na qual chegou a ser cotada como pré-candidata à prefeitura de Fortaleza, ela fez campanha para o Capitão Wagner (Pros), que disputou o cargo com o prefeito eleito Sarto Nogueira (PDT), apoiado pelos irmãos Cid e Ciro Gomes.

Nos dias que antecederam o depoimento à CPI, ela já deu um demonstrativo de que irá partir para o embate no Senado. Nas suas redes sociais, publicou um vídeo antigo em que o senador Randolfe Rodrigues, vice-presidente da CPI, aparece defendendo médicos amapaenses responsáveis pelo tratamento precoce. Também postou a gravação do seu advogado, Djalma Pinto, que a classifica como “cearense guerreira, nordestina, como Barbara de Alencar (famosa heroína da Revolução Pernambucana)”. “O Brasil conhecerá essa cearense que se dedica à medicina e luta de forma combativa na defesa da vida”, diz ele.

Apesar de ter alguns amigos no Senado, Pinheiro não terá vida fácil na CPI. Junto com o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, ela responde a um processo por improbidade administrativa movido pelo Ministério Público Federal do Amazonas. Foi ela a escolhida por Pazuello para fazer o diagnóstico da rede hospitalar de Manaus dias antes da crise de oxigênio, o que acabou não evitando a tragédia em janeiro deste ano. Na capital, ela ainda organizou uma comitiva de médicos para ir a hospitais locais recomendarem a aplicação do “tratamento precoce” e lançou o aplicativo TrateCov, que receitava hiroxicloroquina, azitromicina e outros remédios sem eficácia comprovada. Detalhe: até para casos de náuseas e diarreia.

Em depoimento à procuradoria obtido por VEJA, na condição de investigada, Pinheiro se defendeu dizendo que cabia ao governo do Amazonas e à empresa fornecedora de oxigênio dimensionar a demanda do insumo considerado por ela “essencial” para o sistema de saúde. “A gente não cria as demandas, a gente recebe as demandas que são solicitadas por estados e municípios”, disse ela.

A médica também declarou que viveu “a maior operação de guerra não assistida em filme” ao se envolver na transferência de mais de 500 pacientes do Amazonas para outros estados, que foi feita às pressas pela falta de oxigênio. “É muita história, dá para escrever um livro sobre a experiência de Manaus. Infelizmente, não é um livro com boas histórias”, completou. Na oitiva ao MPF, a secretaria se mostrou solícita e buscou dar respostas técnicas aos seus inquisidores, que acabaram concluindo mesmo assim que ela incorreu no delito de improbidade administrativa junto com outros dirigentes do Ministério da Saúde e do governo do Amazonas.

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