Carta ao Leitor: Bastidores da queda

Quando chegou à presidência da Câmara, em 2015, Eduardo Cunha foi chamado de Frank Underwood, o ambicioso e inescrupuloso político da série ficcional House of Cards, mas um craque na arte de realizar manobras para atingir seus objetivos. Os vários adversários que Cunha fez ao longo do caminho renderam-lhe comparações muito mais ácidas. “Picareta-mor”, cunhou o pedetista Ciro Gomes. “Chantageador-geral da República”, atacou a deputada federal Clarissa Garotinho (Pros-RJ). Ficou associado a ele também o termo “caranguejo”, apelido descoberto durante a Operação Lava-Jato em uma planilha de pagamento de propinas da Odebrecht. Envolvido em uma série de denúncias, Cunha acabou cassado, passou uma temporada em Bangu 8 e encontra-se hoje em prisão domiciliar. Goste-se ou não de suas ideias e de seu estilo de atuação, é inegável que ele foi o protagonista do episódio que mudou a história do Brasil nos últimos anos, ao articular a destituição de Dilma Rousseff, em 2016.

Desde então, ele nunca havia contado em detalhes como se deu essa ação e as estratégias adotadas para a vitória no processo como vem a fazer agora no livro Tchau, Querida — O Diário do Impeachment, com lançamento previsto para 17 de abril, de forma a coincidir com os cinco anos da sessão na Câmara. No relato, que começou a ser arquitetado pelo autor ainda no cárcere, Cunha traça a atuação de seus parceiros ao longo da empreitada (com destaque para o apetite por poder do então vice-presidente Michel Temer) e as tentativas do governo federal de fazer uma composição com ele, ao mesmo tempo que mobilizava forças a fim de destruí-lo. VEJA obteve esse material com exclusividade, usado como base da reportagem que começa na página 22 desta edição, assinada por Gabriel Mascarenhas, um dos mais experientes e talentosos jornalistas do país nesse tipo de cobertura.

Embora seja fruto de memórias de quem teve uma visão privilegiada do processo, Tchau, Querida é um relato naturalmente enviesado daquele momento. O ex-deputado gasta longos trechos se defendendo das acusações que sofreu, mas trata os conchavos patrocinados por ele com sinceridade e naturalidade. Depois de dizer que poderia ter recuado de tudo se tivesse tido o apoio do PT, ele ironiza a tese de “golpe”, lembrando que justamente o partido que fez essa acusação foi o mesmo que comemorou o impeachment de Fernando Collor de Mello e tentou impor semelhante destino a Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco. “Quem com golpe fere, com golpe será ferido”, escreve Cunha. Além de ser um precioso documento para jogar luzes sobre fatos do passado, a obra mostra como o episódio produziu ecos que duram até hoje na política brasileira. Numa das passagens, o então deputado do baixo clero Jair Bolsonaro aparece como o autor do primeiro pedido de impeachment protocolado no segundo mandato de Dilma, já rascunhando ali o plano de se tornar o grande adversário do petismo na campanha à Presidência de 2018. Boa leitura.

Publicado em VEJA de 7 de abril de 2021, edição nº 2732

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