Como Bolsonaro opera sob pressão

Passados mais de dois anos de governo Bolsonaro, já é possível antecipar como o presidente reage sob pressão. No início de 2019, quando a sua incapacidade administrativa espantou até amigos de longa data, Bolsonaro demitiu os ministros Santos Cruz e Gustavo Bebianno e passou a governar e falar apenas para os eleitores mais fiéis. Em 2020, quando a pandemia de Covid espantava o mundo e investigações avançavam contra um dos filhos, Bolsonaro demitiu os ministros Luiz Mandetta e Sergio Moro, e novamente radicalizou o discurso para minimizar a doença. Em julho do ano passado, quando suas ameaças de golpe passaram a ser lavadas a sério no STF, Bolsonaro recolheu as armas, fez um acordo com o Centrão no Congresso que eliminava a possibilidade de um impeachment e apontou seus ataques aos governadores. Colocado contra a parede, Bolsonaro reage.

Novamente, Bolsonaro está sob pressão. A inoperância em deixar milhões de famílias sem o Auxílio Emergencial a partir de janeiro cobra um preço alto na popularidade e na economia. O crescimento do final de 2020 foi um soluço, a inflação voltou e os juros subiram. A negligência em encomendar vacinas no ano passado vai matar milhares de brasileiros. Em nenhum país foram registradas em março tantas mortes por Covid-19 quanto no Brasil.

O reflexo desse momento pode ser sentido pela catarse da oposição com a volta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à corrida eleitoral e medido pela pesquisa PoderData. Pela primeira vez, Bolsonaro não lidera as intenções de voto para o primeiro turno e, mais impressionante, perde para Lula e Ciro Gomes no segundo. A rejeição a Bolsonaro é tamanha que o apresentador Luciano Huck, que tem apenas 4% das intenções de votos no primeiro turno, salta para 40% no segundo e fica em vantagem técnica sobre o presidente, com 37%. Hoje há o clima eleitoral é de “qualquer um menos ele”.

Bolsonaro começou reagindo como de outras vezes. Primeiro, demitiu o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, e o secretário de comunicação, Fabio Wajngarten. Depois, voltou a bater nos governadores que pensam em fazer lockdown. De quebra, fez insinuações de golpe militar. Mas está claro que essas atitudes são apenas o prefácio do que vem por aí.

A prioridade do presidente é ganhar as eleições. Ponto. Se para isso vai esquecer as privatizações ou, ao contrário, irá acelerá-las para ele é indiferente. O importante para entender o Bolsonaro daqui por diante é partir da premissa de que toda decisão do Planalto será essencialmente eleitoral.

Quais são os gargalos imediatos:

1. Auxílio Emergencial – Se o governo for minimente competente, é possível voltar a pagar o benefício médio de R$ 250 a partir da semana que vem. É impossível, no entanto, que a volta do Auxílio ajude a popularidade de Bolsonaro como fez no ano passado. Primeiro porque o novo Auxílio vai ajudar cerca de 40 milhões de pessoas, 28 milhões a menos do que em 2020. Segundo porque o valor é menor e foi corroído pela inflação. Em um ano, o arroz, feijão, óleo de soja e carne subiram mais 50%.

É provável que o presidente estenda o Auxílio até o final do ano.

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2. Combustíveis – O general Luna e Silva assume a presidência da Petrobras no mês que vem com a missão de atenuar os preços dos combustíveis para o consumidor. Isso foi tentado no primeiro governo Dilma e rendeu um prejuízo contábil de R$ 6 bilhões à Petrobras.

A equipe que assessora o general deve tentar a ideia de um fundo que limite os aumentos de combustíveis a um período do mês (permitindo previsibilidade aos caminhoneiros), mas que não abaixe os preços quando as cotações internacionais caírem. O problema é que as perspectivas são de altas continuadas. Não se deve descartar o risco de que, de novo, o caixa da Petrobras assuma os reajustes internacionais.

3. Vacinas – Graças à intransigência de Bolsonaro, hoje faltam vacinas nos postos de saúde. Isso deve mudar a partir de maio, quando ficarão prontos doses tanto do Butantã, quanto da Fiocruz. Mesmo assim, a promessa do Ministério da Saúde de vacinar as 60 milhões de brasileiros acima de 60 anos ou de grupos de risco até junho é mentirosa.

Nas atuais circunstâncias, com o Ministério da Saúde brigando com os governos dos Estados e faltando vacina no mundo todo, o mais provável é que a vacinação só seja concluída em um ano.

4. Empregos – A economia vai mal e depende da vacinação em massa para se recuperar. A relação é direta.

5. Biden – Em abril, o presidente dos EUA lança um financiamento de US$ 20 bilhões para proteger a Amazônia. Colômbia e Peru já estão na fila, mas é natural que o Brasil possa ter a maior parte do fundo. Só que junto com o dinheiro, virá terá um monitoramento internacional que não vai aceitar o “vamos passar a boiada” do ministro do antiambiente, Ricardo Salles. Se não aceitar, aposte com força que os EUA vão tornar a vida do Brasil um inferno.

Bolsonaro estará entre desagradar os agrotrogloditas, base fundamental para sua eleição, ou se submeter aos americanos que não gostam dele. É possível que fique com os votos.

É natural que Bolsonaro aumente o volume de seus ataques a Lula e aos governadores, mas a proximidade das eleições irá obrigá-lo a agir sobre fatos reais. Em bom português, além de modular o discurso para agitar suas massas, Bolsonaro vai ter de governar. Sob pressão.

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