“Como teve lugar isso que nos aconteceu?”, pergunta Idelber Avelar

Em junho de 2013, multidões irritadas foram às ruas protestar contra um irrisório aumento no preço da passagem dos transportes públicos. Logo ficou claro que os “20 centavos” eram apenas a centelha de um protesto muito maior, difícil de entender e contra algo difícil de identificar — afinal, a economia ia bem e Dilma Rousseff (que se reelegeria no fim do ano seguinte) tinha bons índices de aprovação. Foi como um raio atravessando o céu azul.

Em outubro de 2018, multidões irritadas foram às urnas para eleger presidente um deputado inexpressivo que só se fazia notar por declarações agressivas, preconceituosas e com frequências estapafúrdias. Foi um evento inesperado e incompreensível: poucos meses antes da eleição, nenhum analista ou comentarista político dava um tostão furado pela candidatura de Jair Bolsonaro. Outro raio atravessando o céu azul.

Entre o maior levante popular da história e a eleição do político mais autoritário das últimas quatro décadas, o Brasil viu uma brutal recessão econômica; um descomunal movimento popular pelo impeachment; o impeachment em si; a exposição de um assombroso esquema de corrupção; uma extraordinária operação policial que condenaria e prenderia dezenas de empresários e políticos (incluindo um ex-presidente); o chocante assassinato, que daria manchetes em todo o mundo, de uma reverenciada vereadora e líder popular; a subida ao topo das pesquisas de um candidato improvável; o atentado contra a vida desse candidato.

Foi para tentar compreender e explicar como e por que esses impressionantes eventos ocorreram e como se relacionam e para responder a uma pergunta — “como teve lugar isso que nos aconteceu?” — que se tornou uma fixação em sua vida nos últimos anos, que Idelber Avelar escreveu “Eles em nós: retórica e antagonismo político no Brasil do século XXI” (Record).

Analista político de mão cheia mas teórico de literatura por formação (é professor de estudos literários latino-americanos na Universidade de Tulane, em Nova Orleans), foi de uma de suas áreas de especialidade, a análise do discurso, que Idelber partiu para estudar o que ocorreu no Brasil nos últimos anos. O resultado é um belo trabalho que explica como as deficiências do presidencialismo de coalizão, a insensibilidade da classe política, as contradições do PT, a emergência de forças até então sem representação e outros fatores se combinaram para fazer com que o protesto difuso de 2013 desaguasse na eleição do anticandidato de 2018.

“Eles em nós: retórica e antagonismo político no Brasil do século XXI” é um livro indispensável para qualquer pessoa que esteja interessada na política brasileira recente — ou no Brasil moderno de maneira em geral.

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