Conversinha impublicável

A conversa telefônica entre o presidente Bolsonaro e o senador Jorge Kajuru é espantosa por muitos motivos.

Primeiro, claro, pelo teor. O que se ouve na gravação são o chefe de Estado e um senador da República conspirando abertamente para intimidar o Supremo Tribunal Federal e impedi-lo de funcionar livremente. Intimidação, como se sabe, é crime previsto no Código Penal.

Na última vez em que foi divulgada uma conversa telefônica em que uma presidente da República conspirava para cometer um crime (a gravação do “Bessias”, entre Dilma e Lula), a presidente caiu. Bolsonaro fez algo mais grave do que blindar um apaniguado: ele tramou contra a independência entre os Poderes.

Mas ainda mais espantoso é o grau de irresponsabilidade e de falta de bom senso de Kajuru e Bolsonaro, que acharam uma boa ideia divulgar um diálogo em que tramavam um crime. Agora, depois que a bomba explodiu, Bolsonaro dá a entender que foi gravado à revelia e seu filho Flávio anunciou que vai representar contra Kajuru na Comissão de Ética, mas é difícil duvidar que Kajuru tenha divulgado a gravação sem autorização. Até porque o vocabulário usado pelo presidente — sem palavrão, sem “tá ok?”, sem “isso daí” — soa deliberadamente cuidadoso.

Se alguém queria mais um motivo para um pedido de impeachment — já são mais de 90 dormindo na gaveta de Arthur Lira — ganhou dois. Por um lado, está claro que o presidente cometeu crime de responsabilidade; por outro lado, Bolsonaro deixou claro (mais uma vez) que lhe falta um mínimo de bom senso para exercer a presidência.

(Vou me abster de comentar o insuperável sabujismo do nobre senador.)

 

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