CPI ou IPO (por Gustavo Krause)

O debate nacional mudou. Na pauta, a CPI da COVID para avaliar prejuízos da má gestão e a ocorrência de malfeitos com o dinheiro destinado aos que vão adoecer ou morrer. Dinheiro frouxo na mão da corrupção endêmica é difícil vencer a praga sistêmica.

Procurando direitinho, as investigações vão dar de cara com o “banquete dos vampiros”. Não tem leito, sobra remédio. Ou vice-versa. Cabem, agora, as perguntas sobre os grandes escândalos: onde estavam os órgãos de controle? Onde estávamos nós, cidadãos?

O habitual senso de humor cunhou a expressão “tudo acaba em pizza”, antevendo os desfechos da impunidade.

Com descontos, somos os mais italianos dos povos e os italianos são os mais brasileiros do mundo. A parte 1 do livro de Rodrigo Chemim leva o título “Corrupção italiana e brasileira: dois lados da mesma moeda”. Segundo o Barômetro Global da Corrupção, 89% e 81% de italianos e brasileiros, respectivamente, acreditam que os partidos políticos são muito corruptos.

Quanto à “pizza”, prevalece a versão do jornalista Milton Peruzzi. Foi testemunha na década de 60 de reunião do Conselho do Palmeiras que quase termina em porrada. Esfomeados, os valentões se aquietaram diante de 18 pizzas gigantes. A encrenca “terminou em Pizza”, descreveu o jornalista e popularizou a infame impunidade.

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Na década de 70/80, grande parte da lavagem de dinheiro do narcotráfico era realizada por uma grande rede de pizzaria, em New York, Pianconi Pizza Palace. As famiglias mafiosas celebravam crimes em torno da famosa iguaria. O DEA, FBI e a Alfandega criaram uma força-tarefa, a Pizza Connection e, em 1984, dizimaram este braço da máfia.

A CPI da Covid vai terminar em pizza? A ampliação do espectro (Estados e Municípios) é mau sinal. Lembra Stanislaw Ponte Preta: “Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos”! Mas, com vigilância e pressão da opinião pública, é possível alcançar resultados positivos.

Acompanhei a CPI do Orçamento, composta por homúnculos – baixa estatura física e rastejante estatura moral – liderados por um sortudo deputado que ganhou mais de duzentas vezes na loteria. Funcionou. O Senador Jarbas Passarinho (Presidente) e o Deputado Roberto Magalhães (Relator) cumpriram a missão com louvor.

As CPIs são um momento crítico. Instável e conflituoso. Os espertos aproveitam. Manejam hábil e ousadamente o nobre espaço como palanque e se jogam no mercado político tal qual uma IPO (Initial Public Offering) no mercado de capitais: com o coração e cabeça abertos para o máximo retorno no menor prazo possível.

 

Gustavo Krause foi ministro e governador

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