De quem é a culpa? (por Roberto Brant)

Qualquer que seja a nossa inclinação política, dois fatos da vida brasileira não têm como ser negados. Conforme sempre repetia o antigo senador americano Daniel Moynihan, na democracia todos têm direito à sua própria opinião, mas ninguém tem direito aos seus próprios fatos.

No caso, os dois fatos são a estagnação da economia brasileira e o fracasso do país no enfrentamento da pandemia.

A economia brasileira não cresce há dez anos. Em toda a década o Brasil teve um crescimento médio anual de apenas 0,2%, um índice menor do que o crescimento da população, o que significa que, em termos per capita, os brasileiros ficaram 7% mais pobres nesse período.

Isso não é algo que se possa imputar individualmente a um só governo, porque neste tempo tivemos três governos diferentes. De qualquer modo é um fato que sugere que governos e sociedade não têm sabido realizar o que é fundamental para um país como o nosso, que acumula ao mesmo tempo tantos recursos e tanta pobreza.

O outro fato que temos que enfrentar são os números da pandemia em nosso país. Nenhuma aritmética frívola é capaz de desmentir a verdade que, com apenas 2,8% da população mundial, temos 9% dos casos e 10% das mortes por Covid.

Antes que alguém queira confundir uma comparação tão simples, é melhor mostrar os dados oficiais: em 24 de fevereiro os casos no mundo atingiram 111,8 milhões, no Brasil 10,2 milhões; no mesmo dia as mortes no mundo chegaram a 2,4 milhões e no Brasil 247 mil.

Governos não podem tudo diante de uma pandemia desta natureza, precisamos ser justos. Muitas das atitudes de prevenção dependem exclusivamente de escolhas individuais, embora governos sensatos e responsáveis possam convencer as pessoas, se quiserem. Mas só o governo pode providenciar leitos e profissionais de saúde e, principalmente, vacinas para imunização.

O governo brasileiro foi durante meses indiferente à evolução da pandemia e não se moveu preventivamente para assegurar as vacinas para a população. O resultado é que com as poucas vacinas que temos e o ritmo atual de vacinação, levaremos mais de 600 dias para vacinar 75% dos brasileiros. Até aqui estamos falando exclusivamente de fatos.

Tudo isso não precisaria necessariamente acontecer. O Brasil, a sociedade e o governo, têm recursos para se desenvolver e administrar a pandemia de uma maneira muito mais efetiva.

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Há populações no mundo que vivem em regiões muito pobres e que não contam com um Estado de verdade, ou seja uma autoridade central capaz de impor a ordem legal e, ao mesmo tempo, assegurar o ambiente para o desenvolvimento da economia.

Nestas, a pobreza e a doença prevalecem pois não há nada que as enfrente. Outras populações, ao contrário, vivem sob o jugo de um Estado despótico que domina a sociedade sem restrições ou limites. Nestes, a sociedade não tem vida própria e o governo é responsável por tudo.

O Brasil é um país rico de toda a sorte de recursos e a nação vive sob um Estado democrático, onde a liberdade é protegida por instituições e a economia é livre para prosperar. Então, o que há de errado conosco?

Nas democracias, Estado e sociedade são duas faces da mesma coisa e o Estado só é capaz de funcionar se a sociedade também faz a sua parte. As sociedades passivas, ou alheias às questões da esfera pública, têm o hábito equivocado de lançar toda a culpa pelos seus erros e fracassos no Governo, sem levar em conta que na democracia são as pessoas que elegem os governantes e são livres para manifestar sua aprovação ou rejeição.

Quando a sociedade não tem cultura de participação e de envolvimento com a política, esta é invadida e ocupada por minorias e grupos de interesse que desviam os recursos institucionais e financeiros do Estado para os seus próprios fins.

Nenhuma eleição e nenhum governo salvará o Brasil sem que as maiorias sociais ocupem de vez o centro da política e empurrem para longe o fanatismo, a cobiça e a ignorância das minorias.

Se alguém é culpado por tudo que sofremos, este culpado por enquanto somos todos nós.

 

Roberto Brant escreve no Capital Político. Ele foi deputado federal constituinte por Minas Gerais, secretário de Fazenda no governo Hélio Garcia em Minas, ministro da Previdência e Assistência Social do governo de Fernando Henrique Cardoso. Preside atualmente o Instituto CNA. Escreve nos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

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