Desastrada intervenção

A demissão do presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, escancarou uma realidade: Jair Bolsonaro não é um liberal. O ministro da Economia, Paulo Guedes, imaginava ter convertido o capitão ao seu credo. Pura ingenuidade. Castello Branco saiu porque os preços dos combustíveis estavam “errados”, no dizer do presidente.

Bolsonaro buscou vender uma versão edulcorada de seu ato. Como o mandato de Castello Branco venceria em março deste ano, a decisão não foi demiti-lo, mas negar-lhe mais dois anos à frente da empresa. Não colou.

Executivos costumam ser reeleitos quando seu desempenho é bom. Era o caso, na avaliação de quem acompanha a gestão da Petrobras. Na pauta da reunião do conselho de administração, marcada para o dia 23 de fevereiro, estava a renovação do mandato do presidente da estatal.

O reajuste dos combustíveis, como estabelecido corretamente na política de preços da Petrobras, leva em conta as cotações internacionais do petróleo e do dólar ante ao real. Há quem defenda que o correto seria considerar os custos domésticos de extração do petróleo.

Parece lógico, mas é equivocado. No mundo, commodities são comercializadas com base nos preços em mercados globais. É assim também com soja, milho, carne, aves, minério de ferro e outros produtos. Em tais casos, a adoção desse disparatado modelo geraria enormes distorções.

A intervenção provocou uma queda de bilhões de reais no valor de mercado da Petrobras. Isso pode ser recuperado, mas há, infelizmente, danos duradouros.

“A imagem do Brasil, desgastada pelo atual governo na área ambiental e na pandemia, tende a piorar”

Por muito tempo, participantes do mercado terão receio em adquirir ações da Petrobras e de outras estatais. Pode arrefecer o ânimo dos que têm interesse em participar de leilões de concessão de saneamento básico e de outras áreas de infraestrutura. Como confiar que as regras sobre o preço dos serviços não serão violadas pelo poder concedente, influenciado pelas visões de mundo do iliberal Bolsonaro?

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A imagem do Brasil, desgastada pelo desempenho do atual governo na área ambiental e na pandemia, tende a piorar.

O destaque que a demissão ganhou na imprensa estrangeira pode esmaecer o entusiasmo de investidores que acreditaram no programa de transformações estruturais, abertura da economia e modernização prometidas por Guedes.

Claro, isso pode mudar para melhor se advierem novas e adequadas atitudes dos governantes, mas vai demandar tempo e talvez outra administração.

O presidente indicado para a Petrobras, o general Joaquim Silva e Luna, precisa torcer para que ocorra queda nas cotações do petróleo e do dólar.

Se subirem e tiver sido mantida a atual política da Petrobras, o general será obrigado a autorizar a elevação dos preços dos derivados de petróleo. Poderia perder o cargo, a depender do humor de Bolsonaro. Se preferir ter “sensibilidade”, como disse em entrevista, imporá prejuízos à empresa e, depois, ao Tesouro, que pela lei das estatais terá de cobrir o prejuízo.

A conta virá para todos os brasileiros.

Publicado em VEJA de 3 de março de 2021, edição nº 2727

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