Enquanto Bolsonaro radicaliza e apela à polarização, Lula é só paz e amor

Jair Bolsonaro vive o seu pior momento político desde que tomou posse na Presidência da República. Metade da população considera seu governo ruim ou péssimo. Antes favorito para conquistar a reeleição, ele perdeu a liderança nas pesquisas de intenção de voto para o ex-presidente Lula, que aparece à frente nas simulações tanto de primeiro quanto de segundo turno. As razões da debilidade momentânea do ex-capitão são conhecidas: crise econômica, desemprego e inflação em alta, lentidão na vacinação contra a Covid-19 e o desgaste provocado pela CPI da Pandemia, controlada por senadores oposicionistas.

Como ocorre todas as vezes em que se sente acuado, Bolsonaro resolveu reagir partindo para o ataque. No sábado 15 de maio, chamou Lula de “o maior canalha da história do Brasil”. Na sexta-feira 21, retomou a ofensiva e afirmou, referindo-se ao petista: “Falando em política, para o ano que vem já tem uma chapa formada. O ladrão candidato a presidente e um vagabundo como vice”. A estratégia é clara: reforçar a polarização, insuflar o antipetismo e, como ocorreu em 2018, apresentar-se ao eleitorado como o único nome capaz de impedir a volta do PT ao poder.

“A estratégia de polarizar com o Lula tem o objetivo de manter a base dele ativa, o que garante a musculatura do Bolsonaro. Acho que é a única estratégia de que ele dispõe. Hoje, o presidente não pode falar nem de pandemia nem de economia. Tem que criar um inimigo”, diz Maurício Moura, fundador do Ideia Big Data e professor visitante da Universidade George Washington. Segundo a mais recente pesquisa realizada pelo instituto, com dados colhidos em 19 e 20 de maio a partir de 1000 entrevistas, Lula lidera nas intenções de voto para a Presidência em todos os cenários de primeiro turno, com vantagens sobre Bolsonaro que variam de dois a seis pontos porcentuais.

Na simulação de segundo turno, o petista venceria o ex-capitão por 45% a 37%. A diferença entre eles é menor do que a registrada na mais recente pesquisa Datafolha, realizada em 11 e 12 de maio: 55% a 32%. “O eleitor não gosta de desperdiçar seu voto. Tendo ambos um contingente grande de fãs, algo próximo de 25%, Lula e Bolsonaro devem polarizar o pleito”, afirma o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest Consultoria, que elabora um ranking diário de popularidade digital no qual Lula e Bolsonaro também aparecem nas primeiras colocações. “Ainda contribui com esse quadro de polarização o fato de que o centro não tem conseguido coordenar ações para fragmentar o voto de um e de outro”, acrescenta Nunes.

O levantamento do Ideia Big Data traz outros dados ruins para Bolsonaro. Metade dos entrevistados considera o governo ruim ou péssimo, enquanto apenas 24% o avaliam como ótimo ou bom. O presidente também tem o maior nível de rejeição entre os presidenciáveis, de 39%, ante 36% de Lula. A pandemia e a crise econômica ajudam a explicar essa situação. “A números de hoje, a eleição seria uma batalha de rejeições, que teria algumas implicações práticas. A primeira é que a gente não teria uma eleição de convencimento, porque dificilmente você vai conseguir convencer alguém do Bolsonaro a votar no Lula e vice-versa”, diz Maurício Moura. “Cada candidato teria que convencer o máximo de apoiadores a votar, porque, num ambiente tão polarizado, a abstenção pode fazer a diferença numa eleição apertada de rejeição”.

Os dois favoritos têm reagido à rejeição de forma diferente. Enquanto Bolsonaro radicaliza e age de olho em nichos bem específicos de apoiadores, Lula procura antigos adversários e se apresenta como um político moderado. No último dia 12, ele almoçou com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que em entrevistas recentes declarou que votará no petista em eventual segundo turno contra Bolsonaro. Lula também retomou as conversas com políticos, inclusive com velhos caciques do MDB, legenda que capitaneou o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Estão previstos ainda encontros com pesos pesados do PIB. Não consta dos planos do petista revidar os xingamentos ou responder as provocações de Bolsonaro. A ideia é confrontá-lo de forma indireta e propositiva, defendendo, por exemplo, mais vacinas contra a Covid-19 e a volta do valor de 600 reais para o auxílio emergencial. Chamado para a briga, Lula será paz e amor — até o tema corrupção entrar em pauta. O ex-presidente já disse a vários interlocutores que não admirá ser chamado de ladrão.

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