Eu me recuso (por Otávio Santana do Rêgo Barros)

“Não há nada tão desesperador como não ter uma nova esperança.”

 (Nicolau Maquiavel)

 

“Eu me recuso a ficar trabalhando com este cenário […]. Não é possível que o Brasil não consiga sair dessa armadilha populista. Populismo de esquerda, populismo de direita. […] repetindo os erros do passado.”

Essa foi a resposta da economista Elena Landau a uma instigadora pergunta sobre as circunstâncias políticas na qual estamos imersos. O questionamento foi promovido pelos apresentadores do programa Manhattam Connection da TV Cultura, exibido em 14 de abril de 2021 (https://youtu.be/ni2NWUQq2TM).

Quem viveu os desacertos da esquerda, com suas paixões arrebatadoras fixadas em um espelho retrovisor que refletia uma história já acabada, entende o desabafo da entrevistada.

Quem vive os sobressaltos da direita, colimada em posturas que não se amoldam ao espírito apaziguador do brasileiro contemporâneo, sofre do mesmo desalento da economista.

Os dois principais contendores, monopolizados pelo escantilhão dos analistas políticos, e seus partidários continuarão dicotômicos.

O que lidera a esquerda aponta o dedo para as elites como responsáveis pelo burburinho social – às vezes provocado por ela mesma -, em discurso aglutinador para suas bases eleitorais.

O que se qualifica como direita vislumbra os adversários como encarniçados inimigos renascidos das sombras, em discurso monossilábico para energizar seus psilitos ideológicos.

A aura envolvente do poder os enfeitiçou desde o primeiro dia dos seus mandatos. Olhar fixo e obcecado em um ponto de luz quatro anos adiante, imaginando o que fazer para lograr êxito na conquista do futuro pleito eleitoral.

Ainda que cada pessoa seja única em sua personalidade, o governante deve regular sua postura com base em atributos como sobriedade, humildade, respeito às instituições, resiliência, defesa da coisa pública e servidão incondicional ao povo.

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Deve afastar-se dos histrionismos inconvenientes. Na ribalta do poder seu público é a sociedade, toda ela, a que lhe concedeu o votou e a que não lhe concedeu.

Um bom exemplo de atitude a ser absorvida pelos gestores políticos vem das palavras de Abraham Lincoln ao abordar a governabilidade: “com sentimento público, nada pode fracassar, sem ele, nada pode ter sucesso.”

Um chefe de poder não deve abstrair-se da realidade diária e entrar em um mundo paralelo para ficar brincando de mocinho e bandido, de pega ladrão, de pique-esconde. Nem sempre será visto como o mocinho, muitas vezes incorporará o papel de vilão.

Não é sequer engraçado. Afronta a liturgia e a nobreza do cargo.

Como sociedade em constante evolução, precisamos encontrar uma maneira de aliviar o maniqueísmo dos preconceitos ideológicos, da obliteração emocional e do antolho intelectual.

Exaurem cada cidadão sugando a seiva da bem-aventurança. Potencializam as agruras da caminhada diária do indivíduo em busca de suplantar os obstáculos da sobrevivência.

A existência insalubre, economicamente deficitária, socialmente dependente e agora infelizmente violentada de forma dantesca pela incontrolável pandemia do coronavírus são fatores desencorajadores.

Como asseverado por William Young, “crescer significa mudar e mudar envolve riscos”. Precisamos crescer a fim de libertar-se das mazelas seculares que nos acompanham.

Logo, vamos ter que nos arriscar! Nos arriscar na procura de uma opção que nos encha novamente de esperanças. As que se apresentam, para muitos, perderam o brilho. Ouço muitas pessoas afirmando que não existe tal opção. Eu tenho esperança.

É mandatório encontrar um líder inspirador – ele já está por aí – que se apresente e consiga infundir um senso de propósito e significado de vida às pessoas.

Paz e Bem!

Otávio Santana do Rêgo Barros é general do Exército e ex-porta-voz da presidência da República. Escreve aqui às quartas-feiras 

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