Ex-secretário do DF vira pivô de um embate político nos bastidores da CPI

No mês passado, o senador Eduardo Girão (Podemos-CE) apresentou um requerimento pedindo a convocação do assistente social Francisco de Araújo Filho para depor na CPI da Pandemia. O documento chegou à mesa do presidente da comissão e foi juntado a uma pilha de mais de 200 requerimentos que aguardam aprovação. Ninguém deu muita atenção ao personagem, absolutamente desconhecido do grande público. Há quem aposte, porém, que ele pode causar uma grande confusão. Ex-secretário de Saúde do Distrito Federal, Araújo foi preso em agosto do ano passado, apontado como ponta de lança de uma quadrilha que desviou milhões de reais que deveriam ser usados no combate ao coronavírus na capital federal. Entre os muitos absurdos que a polícia descobriu sobre ele, um atingiu o topo da cadeia de crueldade: no ápice da primeira onda da doença, ele manipulou uma licitação que comprou milhares de testes fajutos para detectar a Covid-19.

O caso de Brasília é um clássico dos manuais de corrupção. Diante da tragédia sanitária, alguns gestores, em conluio com empresas, fraudaram processos de aquisição de insumos e medicamentos e compartilhavam lucros astronômicos. A polícia e o Ministério Público detectaram toda uma cadeia de ilegalidades que resultaram em um prejuízo de 46 milhões de reais aos cofres da capital. Mas há um mistério que ainda intriga os investigadores. Como Francisco de Araújo, um ex-vereador do interior de Alagoas, assumiu um cargo tão sensível como o de secretário de Saúde de Brasília num momento em que se enfrentava a maior crise do planeta? Ninguém ainda conseguiu responder a isso com o mínimo de clareza — e a incógnita tem dado margem a intrigas e especulações que podem chegar ao plenário da CPI da Pandemia.

EM BRASÍLIA – Ibaneis diz que conheceu Araújo no Ministério da Saúde –Renato Alves/Agência Brasília/.

A biografia oficial de Francisco de Araújo conta que ele nasceu no Maranhão há 51 anos, mas construiu a vida e a carreira política em Alagoas. Ele foi vereador e secretário de Saúde de Cajueiro, uma cidade de 20 000 habitantes, distante 75 quilômetros da capital do estado. Em 2009, foi convidado pelo então prefeito de Maceió, Cícero Almeida (MDB), para assumir o comando da Secretaria de Assistência Social, de onde saiu debaixo de suspeitas. De acordo com o Ministério Público, Araújo e outras oito pessoas desviaram mais de 50 milhões de reais para uma empresa sem fins lucrativos contratada pela prefeitura para administrar verbas da saúde. Em dezembro do ano passado, ele foi condenado por improbidade administrativa.

Depois do escândalo em Alagoas, Araújo se transferiu para Brasília, onde ocupou o cargo de assessor da Câmara dos Deputados, nomeado pelo então presidente Eduardo Cunha (MDB). No governo Temer (MDB), ele dirigiu um departamento no Ministério das Cidades. Em janeiro de 2019, veio o grande salto profissional, ao ser convidado pelo governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), primeiro para assumir a presidência do Instituto de Gestão Estratégica da Saúde, uma entidade que tem a mesma finalidade daquela que ele já havia dirigido em Alagoas, administrar verbas públicas, depois para assumir a Secretaria de Saúde do DF, pasta que tem um orçamento anual de 7 bilhões de reais. Em agosto do ano passado, o secretário foi flagrado combinando com empresários os termos de licitações para compra de testes e insumos para o enfrentamento da Covid a preços superfaturados. Ele foi preso e denunciado à Justiça por peculato, fraude e organização criminosa. Mas um mistério ainda continuava sem resposta: ninguém conseguiu saber como exatamente o ex-secretário chegou ao posto. O senador Girão, autor do requerimento, atendeu a um pedido do senador Izalci Lucas (PSDB-DF), pré-candidato ao governo do DF, que mira, claro, o governador Ibaneis Rocha, que já foi convocado para depor. Mas há outros candidatos a padrinho.

EM ALAGOAS - Renan Filho com Araújo: “Não tenho nada a ver com a indicação” –//Reprodução

Na época da prisão, o deputado distrital Chico Vigilante (PT) disse a VEJA que Francisco de Araújo era ligado ao senador Renan Calheiros (MDB-AL). O atual relator da CPI da Pandemia, porém, nega ter qualquer vínculo com o ex-secretário: “Não tenho nada a ver com a indicação dessa pessoa e nem tenho qualquer relacionamento com ela”, garantiu. Na campanha para o governo de Alagoas, em 2014, Araújo aparece em várias imagens ao lado do então candidato à reeleição, Renan Filho (MDB). Na ocasião, ele disputava uma vaga de deputado estadual pelo PRTB, partido que apoiava a coligação liderada pelo então candidato a governador. Indagado sobre o assunto, Renan Filho também garantiu que não tem nenhuma relação com o ex-secretário e nada tem a ver com a indicação dele.

Entre os detidos na Operação Falso Negativo, havia um assessor do deputado João Carlos Bacelar (PL-BA), o que fez surgir rumores de que o ex-secretário teria sido indicado pelo partido do notório Valdemar Costa Neto, ex-deputado condenado no escândalo do mensalão. O PL no Distrito Federal, hoje presidido pela ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda, no entanto, diz que não há nenhuma ligação do assistente social com o partido. Sobrou Ibaneis Rocha. Responsável pela nomeação do secretário, o governador explicou, por intermédio de sua assessoria, que conheceu Francisco de Araújo no Ministério da Saúde, quando a pasta era chefiada por Luiz Henrique Mandetta. Estranho. O Ministério da Saúde informou que não consta em seu Sistema de Gestão que Araújo tenha trabalhado na pasta. O ex-secretário, que passou 83 dias preso e alega inocência, não quis se pronunciar. É aquele velho ditado popular: filho feio, em geral, não tem pai.

Publicado em VEJA de 02 de junho de 2021, edição nº 2740

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