Guedes na mira da CPI

O governo apanhou, porque o relato do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta à CPI da Covid não deixou dúvida sobre omissões e ações deletérias na gestão da pandemia, mas do ponto de vista individual quem saiu mais machucado do depoimento foi o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Tanto que o vice-presidente do colegiado, senador Randolfe Rodrigues, prontamente requereu a convocação de Guedes até então fora do radar da comissão. No quesito novidade, num cenário em que os fatos são amplamente conhecidos, o ponto alto foi a revelação da atitude de absoluto descaso de Paulo Guedes chamado por Mandetta de desonesto intelectual, insensível, arrogante e desinformado.

O ex-ministro apontou o absoluto desinteresse do titular da Economia nas orientações da área de Saúde e praticamente o acusou de ser o responsável pela tese, seguida pelo presidente Jair Bolsonaro, de que a preservação da economia deveria ser prioritária em relação aos cuidados com a saúde da população.

Guedes, que já vinha mal devido a declarações desastradas e avaliações equivocadas na condução de sua pasta, poderá ficar em situação ainda pior se for mesmo obrigado a depor na CPI. Irritadiço e inábil no trato com políticos, é um forte candidato a rivalizar com o general Eduardo Pazuello no quesito risco potencial ao governo.

Não que o ex-ministro da Saúde tenha poupado o presidente da República. Deixou muito claro que Jair Bolsonaro foi alertado para os riscos da crise sanitária, avisado para as medidas necessárias e optou por ignorar as orientações.

Apontou os prejuízos causados pelo desmonte da equipe da pasta da Saúde, a entrega do ministério a militares, a crença na tal da imunidade de rebanho, a defesa do uso de medicamentos sem eficácia comprovada e concluiu que se não fosse isso o Brasil estaria numa situação melhor. A certa altura, resumiu sua avaliação numa frase: “Faltou governança” e marcou distância de Bolsonaro com outro dito de efeito, “mais de 400 mil vidas me separam do presidente”.

Mas o que foi dito em relação ao presidente já era de conhecimento geral. Sobre Paulo Guedes é que ainda não se sabia o que Luiz Henrique Mandetta revelou sobre a influência dele no rumo equivocado, de consequências nefastas, que o governo deu ao manejo da pandemia.

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