Hambúrguer de brócolis (por Tânia Fusco)

O tradicional – que o Zero 1 fritava nos USA – é feito de carne moída e temperos, frito em chapa quente. Prato oficial da comida americana, bom ou ruim, o mundo inteiro conhece. Muita gente ama, quase ninguém desgosta. Feito de qualquer outra coisa pode ter formato de hambúrguer, mas não é hambúrguer. No máximo, será um bolinho achatado parecido com um hambúrguer.

O Brasil de hoje consagrou o modo hambúrguer de brócolis. Parece, mas não é. O Governo Federal parece governo, tem presidente e ministros, mas não é governo. É um amontoado de gente inepta para (qualquer) função, com decisões e indecisões, metas sem metas, num faz-desfaz sem fim, uma desgraceira só, despejada sobre a população – essa sim, cada dia mais frita e aflita.

Ontem, segunda-feira de chapa quentíssima na cena política brasileira, o Brasil superou os 266 mil mortos do covid-19. Média recorde de 1.540 mortes em 24 horas. O vírus corre solto, criando novas cepas, mais contagiosas, mais mortais, alcançando jovens.

Apenas 4% da população recebeu a vacina, que, vale repetir, protege e salva vidas. O governo hambúrguer de brócolis fez que comprou, não comprou. Agora, sem máscara, na cara dura, diz que corre atrás. Não corre. Não faz o que deveria já ter feito. E seja o que Deus quiser. (Particularmente, acho que Deus tá de saco muito cheio desse faz de conta sem fim que assola o país. Já ligou o foda-se. Vocês que armaram essa confusão que se virem na solução).

Neste março, somamos um ano da pandemia e de quarentena aportada por aqui e uns cinco anos do país nesse modo hambúrguer de brócolis. Tivemos com um golpe de estado travestido de impeachment de fake causa, uma operação caça corruptos de um alvo só. Tudo devidamente legitimado na Justiça. Hambúrgueres de brócolis servidos fartamente nas mídias de uma nota só – delenda Lula, o bandido nacional.

Fez-se e desfez-se um de tudo fora da lei, como se fosse dentro da lei e em nome da lei. O juiz capitão de mato virou herói nacional. Entre outras coisas, divulgou áudio de conversa da presidente da República, sem a obrigatória autorização da Justiça. Pelo atrevimento, recebeu um mero “pito” do STF. Seguiu hamburgando brócolis.

Procuradores substituíram provas por convicção. E tiveram muitos minutos nos principais noticiários nacionais para exibir até um tosco PowerPoint em que “convicções” flechavam o alvo Lula. Dá-lhe brócolis substituindo carne moída!

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Réu sem provas concretas, Lula foi condenado e preso. Metade dos brasileiros aplaudiu, recusando enxergar que, quando permitimos que Justiça injusta alcance adversários, estamos abrindo permissão para que, nos mesmos moldes e com os mesmos defeitos, processos fakes possam alcançar e condenar seu pai, seu filho, seu amigo, você.

A Lavajato, contam gravações expostas na Vazajato, não é bem o que poderia ter sido. E que seria exemplar. Optou, parece, pelo modelo Justiça hambúrguer de brócolis. Permitiu até que uma delegada formalizasse, com escrivão, depoimento que não houve. A moça virou assistente do juiz-herói, que trocou a toga pela farda de Ministro da Justiça do governo eleito no carreado das suas sentenças.

Nada disso mereceu nas mídias escândalo por suspeição. “Opa! Isso tá com uma cara danada de hambúrguer de brócolis”… Milhares viram, aprovaram e aplaudiram o passo a passo da espetaculosa Lavajato. Poucos tomam conhecimento dos desmandos expostos pela Vazajato. Não interessa. “São gravações obtidas de forma ilegal”, descartam.

Ontem, o ministro Edson Fachin declarou a incompetência da 13ª Vara de Curitiba para julgar quatro processos contra Lula – o do tríplex, o do sítio de Atibaia, o de compra de terreno para o Instituto Lula e o de doações para o mesmo Instituto. O que, por enquanto, anula condenações.

Hoje, o STF deve decidir sobre pedido de suspeição do juiz Moro nos causas envolvendo Lula. Diz-se que a decisão de ontem pode evitar o julgamento de hoje, preservando o ex-juiz e protegendo a Lavajato da evidência mortal de graves vícios nos seus processos.

Ou seja, a decisão de Fachin, que derrubou a bolsa e subiu o dólar, pode ter sido outro corriqueiro – e já muito bem assimilado – hambúrguer de brócolis. Parece, mas não é. E fica por isso mesmo.

Tânia Fusco é jornalista

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