História e farsa: Bolsonaro erra o golpe (por Vitor Hugo Soares)

Conheço, desde a juventude estudantil, a frase famosa do barbudo pensador socialista alemão, Karl Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Ainda assim, senti alguns arrepios no 29 de Março, do tempo amargo da pandemia,que avança para a marca medonha das mais de 330 mil vidas ceifadas até aqui. Isso ao ver a manobra imprudente e rude – do capitão reformado por mau comportamento, no Exército, atual chefe do mando no Palácio do Planalto – , ao promover, de uma canetada só, a troca de seis ministros, incluindo o das Relações Exteriores, Ernesto Araújo (que decidiu trombar com a deputada ruralista, Kátia Abreu, osso duro de roer, e desabou).

Além da impulsiva e insolente mexida no alto comando das Forças Armadas, ao demitir (a la Donald Trump) o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva – militar que lidera, e não só ordena, segundo a tropa e colegas de rango– alçando ao posto o general Braga Neto, notório “coringa”, que joga em qualquer posição, mas não atua bem em nenhuma – além da retórica.Agora já é possível ao rodado jornalista, acreditar que deu errado o golpe do capitão. Basta verificar os modos, movimentos e as recentes declarações do vice, Hamilton Mourão, comparadas com a cara de poucos amigos, nas imagens recentes do “mito” e o silêncio envergonhado da incendiaria deputada Bia Kicis, presidente da Comissão de Constitui&cce dil;ão e Justiça, que tentou tocar fogo na capital baiana ao estimular o levante da Polícia Militar, contra o governador Rui Costa (PT), querendo transformar em herói nacional o PM surtado, que apareceu “do nada”, vindo de outra cidade, Itacaré, com o rosto pintado de verde e amarelo e aos gritos começou a disparar tiros de fuzil contra companheiros de farda, que em reação o feriram de morte, no Farol da Barra, um dos mais belos e movimentados recantos de Salvador, que celebrava na data(29) seu aniversário de 472 anos de fundação.

Passageiro noviço nos idos do golpe militar e civil de 1964, e viajante escaldado da repetição da história, como tragédia, no pós Ato Institucional nº 5, do emblemático 1968 – quando fui preso, com mais seis colegas, dentro da sala de aula, durante impensável invasão, pela Polícia Federal (seu comandante na Bahia à frente), da Faculdade de Direito da UFBA, de onde saímos, todos algemados, para a sede da PF. Daí para o QG da VI Região Militar e, por fim, após amedrontadora viagem na noite da capital baiana, fomos todos despachados em uma cela do Quartel do Décimo Nono Batalhão de Cavalaria do Exército, o 19 BC, no então distante bairro do Cabula. Nas vésperas, como agora, das comemorações do “movimento”.&n bsp;

Lembrei então do pensamento do filosofo nascido em Triers, território da Prússia, área na época dividida, da hoje unificada e pujante Alemanha, conduzida com sabedoria e equilíbrio pela estadista Ângela Merkell. Mas, ao postar comentário postado no Facebook, optei pela frase mais atual do também famoso do falecido e influente colunista Ibrahim Sued: “Olho vivo, que cavalo não desce escada”, escrevi.

Cético que sou prefiro duvidar que instituições como as Forças Armadas e a PF estejam inclinadas e dispostas a embarcar em inconstitucional aventura, como nos idos de 60 e 70. Sou mais propenso a crer , ser mais um jogo palaciano da família instalada no poder. Em síntese, uma ópera bufa. Uma farsa. Na qual o capitão presidente foi buscar lã e saiu tosquiado. A conferir.

 

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail:[email protected]

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