Liberado da prisão domiciliar, Queiroz mantém seus segredos preservados

Liberados da prisão domiciliar por uma decisão da Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), o policial militar aposentado Fabrício Queiroz e sua mulher, Márcia de Aguiar, nunca revelaram seus segredos sobre o esquema de rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, hoje senador, e sobre os repasses de 89 000 reais que fizeram à primeira-dama Michelle Bolsonaro. Desde o início das investigações do caso, o casal se manteve em silêncio diante de duas promessas. A primeira é de que o trabalho do Ministério Público do Rio de Janeiro será arquivado nos tribunais superiores, o que ainda não ocorreu de forma definitiva.

A Quinta Turma do STJ até anulou as quebras de sigilo bancário e fiscal de Flávio, Queiroz, Márcia e outros 90 investigados, invalidando as principais provas colhidas contra eles, mas confirmou a legalidade dos relatórios do Coaf que deram início às apurações em curso. Há ainda questões importantes à espera de manifestação do Supremo Tribunal Federal (STF). A segunda promessa é de que, mesmo que a Justiça não arquive o caso, a família de Queiroz não será largada à própria sorte e receberá ajuda – desde que, claro, ele não conte o que viu, ouviu e fez em nome da primeira-família da República.

Amigo de Jair Bolsonaro desde a década de 80, Queiroz está cumprindo religiosamente o combinado. Até hoje, ele só tentou explicar as suas transações financeiras milionárias em duas ocasiões – em ambas sob a supervisão de pessoas próximas ao presidente. Na primeira delas, disse em entrevista ao SBT que fazia dinheiro comprando e vendendo carros usados. Seria um “roleiro”, conforme definição empregada pelo próprio Jair Bolsonaro. Não convenceu ninguém. Veio, então, a segunda explicação: Queiroz recolheria parte dos salários de seus colegas no gabinete do então deputado Flávio para contratar, de maneira informal, mais equipe de apoio para o chefe.

Como a nova tese também não colou, o policial militar apostando foi orientado a sumir do mapa e só reapareceu quando foi preso num imóvel em Atibaia (SP) pertencente a Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro. Conforme revelado por VEJA em abril do ano passado, enquanto vivia escondido em imóveis de amigos no Rio e de Wassef em São Paulo, Queiroz agradeceu o suporte que era dado a seus familiares. Foi numa mensagem enviada a um interlocutor não identificado dias antes de ser operado da próstata, num hospital em Bragança Paulista, interior de São Paulo.

“Valeu, valeu, meu irmãozão…. Obrigado por tudo aí, tá? Gratidão não prescreve, cara, não prescreve mesmo. O que você está fazendo pelas minhas filhas aí, cara, não tem preço. Serei eternamente grato, entendeu?”, diz Queiroz no áudio. Duas filhas dele, Nathália e Evelyn, trabalharam no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio e foram denunciadas pelo MP como participantes do esquema da rachadinha. Mantido até aqui de forma inabalável, o voto de silêncio provocou desgastes dentro da família de Queiroz.

Márcia de Aguiar, que também foi denunciada pelos promotores no processo da rachadinha, sempre reclamou do que considerava subserviência do marido. Em mensagens trocadas com a advogada Ana Paula Rigamonti, que à época era contratada por Wassef e fazia companhia a Queiroz no imóvel em Atibaia, Márcia reclama do fato de o marido ser obrigado a viver escondido. Ela também insinua que Queiroz era coagido a se manter distante dos esclarecimentos necessários. “A nossa família está desmoronando, Ana, e eu estou assim emocionalmente abalada”, diz Márcia em mensagem de novembro de 2019. “Não estou aguentando. Está muito difícil, amiga (…) A minha depressão veio assim forte (…) Se eu passar isso para o Queiroz, ele não vai aguentar.”

Em outro áudio, Márcia reclama porque a vida da família está sendo regida pelo “Anjo”, que, segundo o MP, é o próprio Wassef. Até o uso de aparelho celular teria de obedecer a uma série de regras. Wassef nega ser o “Anjo” e alega que não conversava com Queiroz. “A gente não é foragido. Ah, que saco. Eu já não estou mais aguentando essa situação, amiga. Não estou”. Meses depois dessa conversa, em junho de 2020, Queiroz foi preso no sítio de Wassef, e Márcia, que também teve a prisão decretada, tornou-se foragida. Decisões dos tribunais superiores garantiram ao casal o direito ao regime de prisão domiciliar e, agora, à liberdade.

As vitórias na Justiça acalmaram a família e devem reforçar os termos dos acordos firmados por Queiroz. O faz-tudo da família Bolsonaro segue firme no propósito de matar no peito. Já Márcia tem, desde sempre, certa preocupação com o rumo das coisas. Em um de seus desabafos, deixou claro que ela e Queiroz dificilmente levarão uma vida normal mesmo que o processo da rachadinha seja arquivado. Faz sentido. Nas redes sociais, uma das mensagens mais reproduzidas em certo período do ano passado foi sobre os repasses do casal a Michelle Bolsonaro. “Ganhando ou não ganhando, o nosso nome vai ficar na mídia, o nome do Queiroz vai ficar na mídia por muito tempo”. O tempo dirá se a gratidão, de fato, não prescreve.

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