‘Minha função é investigar’, diz superintendente da PF do AM

O superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Saraiva, disse nesta quarta-feira, 15, a VEJA que ainda não foi comunicado de sua exoneração do cargo. A decisão do comando da corporação de trocar Saraiva ocorreu um dia após ele encaminhar uma queixa-crime ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Ministério Público Federal (MPF) em que pede investigação contra o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que tem defendido empresários madeireiros alvos da operação da PF no Amazonas na maior apreensão de madeira ilegal da história.

“Minha função é investigar. Foi o que eu fiz aqui durante dez anos”, disse Saraiva. “Não fiz concurso para superintendente, fiz para delegado”, completou, lembrando que foi superintendente em outros estados da Região Norte. Em princípio, o caso envolvendo a apreensão das madeiras continua com Saraiva, mesmo com a saída dele do comando da PF do Amazonas. Segundo a coluna Radar, ele será substituído no cargo pelo braço-direito dele no órgão, o delegado Leandro Almada.

O atrito entre o superintendente da PF no Amazonas e Salles começou a partir da Operação Handroanthus GLO, deflagrada em dezembro do ano passado, divulgada como a maior apreensão de madeira ilegal da história do país. O volume de toras encontradas chegou a 226.760 metros cúbicos, cujo valor foi estimado pela PF em pouco mais de 129 milhões de reais. 

A ação gerou reclamação de  empresários que se apresentaram como donos de parte da carga e que conseguiram apoio do ministro do Meio Ambiente. Salles se reuniu com os madeireiros, passou a defendê-los em público e viajou com recursos públicos duas vezes a um dos locais de apreensão no Pará, onde encampou a versão dos empresários em detrimento da apuração da PF. Disse que foram apresentados documentos que indicam a origem legal da madeira, ao contrário do que aponta a investigação da corporação no Amazonas encabeçada por Saraiva. Em entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo”, o superintendente chegou a responder às críticas do ministro e  afirmou que a PF “não vai passar boiada”. Salles, por sua vez, disse que  uma “demonização” indevida do setor  contribuiria para aumentar o desmatamento ilegal.

Na queixa-crime encaminhada ao STF, Saraiva afirma que “o setor madeireiro iniciou a formação de parcerias com integrantes do Poder Executivo” na tentativa de “causar obstáculos à investigação de crimes ambientais e de buscar patrocínio de interesses privados e ilegítimos perante a Administração Pública”. Para o delegado,  há  indícios de que Salles incorreu em advocacia administrativa, quando o agente público patrocina, direta ou indiretamente, interesse privado perante a administração pública, valendo-se da qualidade de funcionário.

O instrumento da notícia-crime é  usado para alertar uma autoridade da ocorrência de um ilícito. Com base no que Saraiva apresentou, o STF deverá decidir se abre a investigação contra Salles. No documento, o superintendente da PF no Amazonas pede apuração também contra as condutas do senador Telmário Mota (PROS-RR) e o presidente do Ibama, Eduardo Bin.

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