Moro: osso duro para Bolsonaro e Lula (por Vitor Hugo Soares)

Ilude-se quem imagina e, principalmente, quem diz: o ex-juiz Sérgio Moro foi demolido quanto ao seu eventual e legítimo projeto político e eleitoral – guardado a sete chaves, como os bons jogadores de xadrez fazem com seus melhores e decisivos segredos e os mais estratégicos – com vistas à 2022, quer como cabeça de chapa, ou apoiador de candidato de centro (ou terceira via), com reais possibilidades de “jogar areia no ventilador” do surrado confronto binário “esquerda” x “direita”, com o qual sonham tanto o ex-presidente Lula (PT) e seus acólitos, quanto o presidente Jair Bolsonaro e seus atuais caudatários na ideia fixa de reeleição. Isso, a partir de dois fatos, imprevistos e desconcertantes, desta s emana de março para não esquecer. Não só pela catástrofe da pandemia covid-19, que já ceifou mais de 270 mil vidas no país sem direção e sem comando. Ou algo que mereça estas definições, fora do contexto militarista e negacionista – do general, ministro da Saúde, Pazzuello e do capitão presidente da República – no combate ao mal que parece estar começando, um ano depois do início do morticínio jamais visto, e com tamanha dimensão, no Brasil.

Primeiro, a estranha decisão do ministro Luiz Fachin, do STF, de anular todos os processos e condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – acatando, quase cinco anos depois, a tese de incompetência de foro, da 13ª Vara da Justiça Federal de Curitiba – e determinar que tudo recomece praticamente do zero na Justiça Federal de Brasília. Não sem antes deixar claro que a medida torna o ex-presidente elegível nas presidenciáveis do ano que vem. Cumpra-se, doa em quem doer.

Na terça-feira, 9, o inesperado fez sua segunda surpresa, agora, através do histriônico ato de opereta desafinada, protagonizado no palco da Segunda Turma do STF, pelo ministro Gilmar Mendes, coadjuvado pelo colega Ricardo Lewandowiski, ao votarem pela suspeição do juiz que comandou a Lava Jato, a mais ágil e eficiente operação de combate a corruptos e corruptores da história do País. Espetáculo em cena aberta de lavagem de roupa suja e streep-tease de interesses políticos e partidários, expostos de maneira raramente vista na história da suprema corte de justiça brasileira. Representação que terminou mais um capítulo cercado de indefinições e incertezas, para a atônita sociedade nacional.

A cortina desce com um desfecho ainda mais insólito, e sinais evidentes do lema chacriniano dos que “vêm para confundir e não para explicar”, tal e qual a fala do soberbo ministro Gilmar, sugerindo aos colegas que “calcem as sandálias da modéstia”. E a solicitação de vistas, ao processo, pelo novo ministro do STF, Nunes Marques, levado pelo governo Bolsonaro. Precisa desenhar?
Depois é o que se viu e o que se sabe: Lula, e a velha fantasia de “paz e amor” – menos para Moro e Bolsonaro – e de máscara contra o covid-19, armou seu palanque, quarta-feira, para um comício de quase duas horas, à “esquerda”, começando tudo de novo no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, onde foi gerado. À “direita” Bolsonaro e os seus radicalizam no discurso de ódio aos adversários e desprezo à sociedade. Ao centro, em silêncio, e os mais recentes números de aprovação ao seu nome nas mãos, segue o ex-juiz da Lava Jato como uma das prendas mais valiosas para 2022. A conferir.

 

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail:[email protected]

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