Moro reclama do que ele mesmo fez com Lula e Dilma

Se a quadrilha de Araraquara, que invadiu os celulares do ex-juiz Sérgio Moro e dos procuradores da Lava Jato em Curitiba, foi capaz de criar todos ou parte dos diálogos que hoje o país conhece, merece ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, segundo Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal.

Moro e os procuradores negaram-se a ceder seus celulares para perícia da Polícia Federal. Continuam dizendo que não podem confirmar se os diálogos de fato ocorreram do modo como foram transcritos ou inventados. Mas se ocorreram, não veem nada demais. Nada ali configura crime.

Não é o que pareceu a quatro dos cinco ministros que integram a Segundo Turma do Supremo – e, por isso, eles foram postos à disposição da defesa de Lula, condenado por Moro no caso do processo do triplex do Guarujá. Se todo mundo pode acessá-los, por que a defesa de Lula não poderia? Só não pode usá-los.

A maneira ilegal como os diálogos foram obtidos é perfeitamente comparável à ilegalidade que marcou a obtenção pela Lava Jato do diálogo travado em 16 de março de 2016 pela então presidente Dilma Rousseff com Lula, convidado por ela para assumir a chefia da Casa Civil da presidência da República.

À época, Lula estava ameaçado de ser preso. Uma vez ministro do governo, ganharia foro privilegiado e só por ordem do Supremo poderia ser preso. Seu telefone estava grampeado pela Lava Jato. O prazo do grampo expirou às 11h20 daquele dia. Quase duas horas depois, Dilma ligou para Lula sobre a posse dele.

Como a operadora grampeou o telefone para além do horário permitido, Moro mandou transcrever a conversa e a divulgou de imediato. Foi um escarcéu. O diálogo era a prova de que Dilma e Lula tentavam obstruir a justiça. Moro omitiu gravações que mostram que Lula ainda hesitava em aceitar o convite.

Na manhã do dia 17, Moro disse que não havia reparado no horário da gravação da conversa. “Como havia justa causa e autorização legal para a interceptação, não vislumbro maiores problemas no ocorrido”, argumentou. “Não é o caso de exclusão do diálogo considerando o seu conteúdo relevante”.

Os hackers de Araraquara deram-lhe o troco.

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