Não é só a queda de popularidade – as outras más notícias para Bolsonaro

Jair Bolsonaro enfrenta uma das piores semanas desde que foi empossado presidente da República em janeiro de 2019. A pesquisa Datafolha que apontou recorde de reprovação à gestão federal durante a pandemia — 54% reprovam a sua atuação e apenas 22% a aprovam — é reflexo do descontrole da crise sanitária e do impacto real que os problemas econômicos têm causado na vida da população.

A queda de popularidade — no geral, a sua avaliação de ruim/péssimo chegou a 44%, a pior do seu governo –, no entanto, não é o seu único problema. Outras más notícias se acumularam nos últimos dias, com derrotas na economia, na política e na Justiça que ameaçam os planos que o presidente tem para o futuro de seu governo e para a disputa da reeleição em 2022.

Confira abaixo a coleção de notícias ruins que Bolsonaro recebeu nos últimos dias:

Governadores em visita a farmacêutica União Química em ofensiva para tentar comprar vacinas contra a Covid-19, um dos gargalos da pandemiaPablo Jacob/Agência O Globo

Guerra com governadores

Apesar de ter mudado a sua postura em relação à vacina e ao uso de máscara, Bolsonaro tem mantido firme a sua trincheira contra o isolamento social e disparando críticas aos governadores que têm adotado restrições de circulação e de funcionamento de atividades para deter o novo coronavírus. Bolsonaro tem feito pregação quase diária contra as medidas de distanciamento social. O discurso mobilizou adeptos a protestarem contra os chefes de Executivo estaduais, mas não colou para a maioria da população. Segundo o Datafolha, 43% dos brasileiros responsabilizam o presidente pela situação atual da pandemia, contra 17% que miram nos gestores estaduais. A pesquisa também mostra que 38% das pessoas acham que os governadores combatem melhor a pandemia, enquanto o presidente é citado por 16%. A guerra aberta com os governadores ainda impacta no desempenho do governo para aprovar projetos no Senado, onde os gestores estaduais têm mais influência.

Coveiros trabalham em uma vala comum no cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus, uma das cidades mais afetadas ao longo da pandemiaLucas Silva/Getty Images

Crise sanitária

Auxiliares do presidente admitiram em caráter reservado que o aumento desenfreado no número de mortos pela Covid-19 — já são quase 285.000 — e o colapso do sistema sanitário da maioria dos estados impactaram negativamente a popularidade de Bolsonaro. Essa questão, no entanto, ainda pode provocar mais estragos, já que não há no horizonte uma saída tão rápida para a situação. O Brasil atingiu nesta semana recorde na taxa diária de mortos (que chegou perto de 3.000), a oferta de vacinas continua muito aquém do esperado e o sistema de saúde ameaça colapousar em todo o país. De resto, acabou de trocar o ministro da Saúde — saiu Eduardo Pazuello e entrou Marcelo Queiroga.

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O ministro Paulo Guedes: desafio de retomar a agenda liberal e melhorar os indicadores econômicos, que já preocupamAlessandro Dantas/PT Senado/.

Cenário econômico

A admissão pelo Banco Central de que a inflação é “mais forte e persistente” do que o esperado renovou os alertas em relação ao agravamento dos problemas econômicos no país. Analistas concordam que a campanha para denunciar o aumento dos preços de produtos básicos para o dia a dia dos brasileiros, como alimentos, combustível e botijões de gás, foi uma das armas mais efetivas já idealizadas pela oposição até aqui. O risco de a inflação ficar acima do teto de 3,75% estipulado para este ano foi um dos fatores que levaram ao aumento dos juros pelo Banco Central, em anúncio feito na quarta-feira, 18. O Brasil foi o único país do G20 a ter adotado tal medida em meio à pandemia. Além disso, o arroubo intervencionista de Bolsonaro na Petrobras continua provocando desconfiança no mercado e dificultando investimentos.

Auxílio emergencial: em 2020, benefício de 600 reais mensais alavancou a popularidade de Bolsonaro, mas agora o volume é um quarto disso e a economia está piorAntonio Molina/Fotoarena

Auxílio emergencial menor

Além do aumento dos juros no pior momento da pandemia de Covid-19, em que se faz necessário o fechamento de serviços não essenciais para conter a disseminação do vírus, o governo determinou o pagamento de uma nova rodada do auxílio emergencial no valor de 150 reais para a maioria dos beneficiados. O valor é apenas um quarto dos 600 reais que foram pagos em boa parte do ano passado durante a pandemia, quando a popularidade de Bolsonaro aumentou em função da bonança artificial. Com o fim do benefício, a aprovação do presidente minguou na mesma proporção em que o brasileiro perdeu o poder de compra. Agora, o volume é muito menor para produzir o mesmo milagre, ainda mais com a crise econômica mais aguda.

Lula, na primeira aparição após ter se tornado elegível de novo: petista mira o governo e muda estratégia de BolsonaroMiguel Schincariol/AFP

O efeito Lula

A reinserção do ex-presidente petista no cenário eleitoral desarrumou as estratégias do Palácio do Planalto, tanto para o governo quanto para a eleição de 2022. Lula voltou à cena com discursos em que acena para políticos centristas e que cobram a vacinação em massa da população e o pagamento de um auxílio emergencial robusto. A narrativa do petista vem surtindo efeito. Na quarta-feira, 18, Lula concedeu uma entrevista à rede americana CNN em que fazia um apelo a Joe Biden, o presidente dos EUA, para que ajudasse o Brasil no combate à Covid-19. Tão logo o vídeo foi veiculado, Bolsonaro se apressou em divulgar uma carta datada de fevereiro em que Biden sugeria uma parceria entre os países para enfrentar a pandemia. Também foi na conta do “efeito Lula” que o general Eduardo Pazuello acabou demitido do Ministério da Saúde.

Jair Bolsonaro e Arthur Lira (PP-AL): o presidente da Câmara ficou bastante irritado por não ter emplacado aliados no comando do Ministério da SaúdeMarcos Corrêa/PR

O risco Centrão

A demissão de Pazuello era a oportunidade que os partidos do Centrão esperavam para abocanhar o polpudo orçamento do Ministério da Saúde, mas Bolsonaro ignorou as indicações feitas pelos aliados e escolheu o cardiologista Marcelo Queiroga para ocupar o posto. Queiroga é amigo da família da mulher do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), o filho mais velho do presidente. Essa nomeação irritou profundamente o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), que havia indicado outros dois nomes para o cargo. Há a expectativa de que os deputados do Centrão criem obstáculos para aprovar projetos de interesse do governo para enviar um recado ao presidente. Além do mais, com a queda de popularidade e a entrada de Lula no jogo eleitoral, cresce a preocupação com a fidelidade do Centrão, que não só costuma elevar o seu preço em momentos de dificuldade, como pode abandonar o barco, como fez com Dilma Rousseff.

Flávio Bolsonaro durante sessão no Senado: o filho Zero Um queria enterrar de vez a acusação de rachadinha, mas STJ manteve investigaçõesBeto Barata/Agência Senado

Flávio Bolsonaro na mira

O presidente esperava que a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) enterrasse de uma vez por todas as investigações contra o seu primogênito, mas a decisão proferida pelos magistrados na terça-feira, 16, manteve vivas as apurações sobre os possíveis crimes que Flávio Bolsonaro pode ter cometido durante o período em que era deputado estadual. Embora tenha anulado as principais provas sobre o caso, obtidas por meio das quebras dos sigilos fiscal e bancário de Flávio, o STJ negou dois recursos que poderiam levar as investigações para a estaca zero. A defesa do senador promete recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) para reverter a decisão. O caso envolvendo o filho é uma das principais preocupações na cabeça de Bolsonaro desde pouco antes da posse dele como presidente, quando o caso veio à tona.

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