O João Bobo não fica mais de pé (por de Helena Chagas)

Jair Bolsonaro brinca com a agenda liberal como uma criança com um boneco tipo João Bobo. Ele esmurrava, mas o bicho voltava a ficar de pé, sempre com um sorriso na carinha. Até que um dia… Nesse episódio da intervenção na Petrobras, o João Bobo ficou lá, estatelado, e o garoto afinal se assustou.

Correu para o Congresso com uma medida provisória que facilita a privatização da Eletrobras, mandando dizer ao mercado que não, absolutamente, a agenda não mudou. Fez elogios públicos a um Paulo Guedes atropelado e desautorizado, em estado de mutismo desde o anúncio da demissão do amigo Roberto Castello Branco – e que continuou caladinho. Até uma espécie de “bolsa caminhoneiro” Bolsonaro agora quer criar, para ajudar sua turma sem meter o dedo explicitamente na política de preços da maior empresa da América Latina, como havia deixado claro que faria.

Só que, desta vez, vai ser difícil botar o brinquedo de novo em pé. Em dois anos, foi-se erodindo a confiança do mercado e de boa parte do establishment nas intenções neoliberais desse governo. A turma que apoiou Bolsonaro para se ver livre do PT foi se decepcionando dia-a-dia com as reformas que não andaram, as privatizações que não saíram e o conjunto da obra de atos e declarações de Bolsonaro, sobre o qual nem é preciso falar. De superministro, Paulo Guedes passou a uma espécie de viúva da Esplanada, calada e sofredora.

Ninguém acredita mais que a privatização da Eletrobras vai sair. É possível, sim, que o BNDES, com a nova medida provisória, comece a fazer estudos de modelagem. Daí a ver o Congresso aprovando a venda da empresa há um longo caminho. Por trás dos sorrisos e promessas de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, que posaram ao lado de Bolsonaro na aglomeração legislativa desta terça, há, antes de tudo, a satisfação de ter o chefe do Executivo rendido a seus pés — e com todos aqueles cargos e funções maravilhosas a oferecer na máquina federal

Poucos apostam no ajuste fiscal que a equipe econômica tenta passar como condição para a retomada do auxílio emergencial. O auxílio vem, isso é certeza, pois o candidato Bolsonaro precisa dele. Já o ajuste do governo vai sendo desidratado a cada dia, entre concessões, como a retirada voluntária da redução da jornada e dos salários dos servidores, e medidas sem noção, como a extinção do piso constitucional de recursos para Saúde e Educação. Quem conhece o Legislativo, sabe que isso nunca vai ser aprovado, embora os espertíssimos Lira e Pacheco adotem um discurso neoliberal de ocasião e finjam levar a sério.

O João Bobo caiu e não levanta mais. Mercado e establishment já procuram outro playground para brincar em 2022. Dificilmente Bolsonaro, com seus militares – que estão se divertindo nas estatais – e seus terraplanistas, que gostam de jogar pesado, tipo canelada e dedo-no-olho, vão estar nele. E a turma do Centrão, liderada por Lira e Pacheco? Vai estar no avião de quem lhe pagar passagens de primeira classe para a Disney, rindo de quem ficou.

Helena Chagas é jornalista

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