O que Renan quer

O recado de Renan Calheiros (MDB-AL) foi claro. No discurso feito depois de ser escolhido relator da CPI da Covid, o senador fez menções indiretas ao presidente Jair Bolsonaro, criticou o negacionismo em torno da pandemia, enfatizou que se pautará pela imparcialidade e afirmou que vai relatar apenas o que for comprovado.

A sucessão de erros do governo e a resistência ao nome de Renan acabaram consagrando o senador como relator da CPI. Ele quer ser uma referência de esperança para aqueles que se contrapõem aos discursos radicais do presidente da República. Há uma mudança de humor acontecendo em torno de Renan Calheiros, principalmente pelo fato de que ele não é considerado um parlamentar “chapa branca”. Qualquer nome que não fosse o de Renan estaria comprometido e carimbado como suspeito de favorecer a equipe de Bolsonaro.

O recado fundamental do pronunciamento feito na terça, 27, foi de que Renan pretende ser imparcial e só colocará em seu relatório o que puder comprovar contra o governo. O discurso contundente teve como objetivo corresponder à atenção que o Brasil e outros países estão dando aos trabalhos da CPI. Dessas investigações podem sair descobertas comprometedoras.

Ao rejeitar o negacionismo, Renan dá um recado a Bolsonaro, que insiste em minimizar a pandemia, a importância das vacinas e das medidas sanitárias de isolamento e o uso de máscaras. O senador chegou a dizer que a comissão “será um santuário da ciência, do conhecimento e uma antítese diária e estridente ao obscurantismo negacionista e sepulcral”.

Em outro momento, o senador citou a resistência em torno dos trabalhos da comissão ao dizer que “o negacionismo em relação à pandemia ainda terá de ser investigado e provado. Mas o negacionismo em relação à CPI da Covid já não resta a menor dúvida”.

Aliados de Bolsonaro foram à Justiça para tentar cortar o nome de Calheiros da relatoria da CPI, mas o Tribunal Regional Federal da 1ª Região decidiu que a escolha do relator é ato interno do Senado. Além disso, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), rejeitou o mandado de segurança contra a escolha de Calheiros, o que era esperado, confirmando, por fim, a relatoria. 

Em poucos minutos, Renan reafirmou os conceitos do Iluminismo, do estado democrático de direito e da civilidade. Destacou que, sob sua relatoria, os negacionistas não terão voz. Essa comissão parlamentar de inquérito, diferente de muitas outras, não possui objetivo político. A meta dessa CPI é a vida, ou melhor, a proteção dela. Diante da responsabilidade, Renan Calheiros se propõe a trabalhar para que a comissão seja um palco diário de reposição da verdade, de afirmação da ciência e de defesa da vida.

É o renascimento de um político controverso, investigado em diversos processos na Justiça e que já foi alvo, inclusive, de processos de cassação, todos sem sucesso.

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