O reverso da diplomacia

Editorial de O Estado de S. Paulo (5/3/2021)

Em mais um revés da diplomacia do governo, o candidato brasileiro ao comando da Organização da Aviação Civil Internacional (Oaci) do Sistema ONU, o brigadeiro Ary Rodrigues Bertolino, ficou de fora do segundo turno da disputa. O fracasso serve de alerta às lideranças públicas e privadas que costumam contemporizar como mero folclore inofensivo as diatribes de Jair Bolsonaro, seu chanceler, Ernesto Araújo, e outros protagonistas da vanguarda “ideológica” do governo.

De fato, só Araújo já produziu um anedotário antológico que faria corar o Barão de Rio Branco: desde o seu discurso de posse (em que invocou como patronos da “Nova Diplomacia” Dom Sebastião e Dom Quixote), passando pelo “Deus de Trump” (o único capaz de “salvar o Ocidente”); o orgulho de ser “pária”; os “cidadãos de bem” que vandalizaram o Capitólio; até a recente advertência no Conselho de Direitos Humanos da ONU contra um enigmático “lockdown do espírito humano”. Sobre uma montanha de cadáveres, Araújo já escarneceu das apreensões da população com o “comunavírus”, ridicularizando os esforços de contenção como “covidismo” e “histeria biopolítica”.

A essa extravagante tragicomédia se poderia acrescentar outras cenas: como as ameaças de Bolsonaro de invadir a Venezuela ou de responder com “pólvora” a uma suposta invasão da Amazônia por Joe Biden, ou a outra (talvez pior) de albergar Eduardo Bolsonaro na Embaixada de Washington; além dos insultos a lideranças como Emmanuel Macron e Angela Merkel; ou as tiradas mal-educadas (e iletradas) do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub contra a China e as piadas boçais do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, com as apreensões ambientalistas.

Mas, por mais pitoresca que pareça, essa farsa, no mundo real, tem consequências graves, como a crispação com parceiros comerciais como China, Argentina e, agora, os EUA; a fuga de investidores internacionais; os boicotes ao agronegócio; o descrédito em fóruns como a ONU ou a OMS; ou os riscos ao acordo Mercosul-União Europeia e à entrada do Brasil na OCDE.

E assim, de grosseria em grosseria, o bolsonarismo vai desmoralizando o País como interlocutor de temas caros à comunidade internacional e degradando a reputação construída diligentemente ao longo de séculos pela diplomacia nacional. Um estudo recente da consultoria Curado & Associados estimou que, de 1.179 reportagens em sete dos mais prestigiados veículos de mídia internacionais, 92% citavam o Brasil de forma negativa. No ano passado, todos os seis chanceleres da Nova República assinaram um manifesto de repúdio à “antidiplomacia” bolsonarista.

O fiasco na Oaci não foi o único e dificilmente será o último. Malogros recentes incluem candidaturas para organismos multilaterais como o Tribunal Internacional do Direito do Mar e o Tribunal Internacional de Haia. Desde que Roberto Azevêdo e José Graziano deixaram, respectivamente, a Organização Mundial do Comércio e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, não há nenhuma chefia brasileira nas organizações do Sistema ONU. No ano passado, em uma derradeira mostra de sua fidelidade canina a Donald Trump, o governo retirou a candidatura brasileira à presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento e, quebrando uma tradição de décadas, apoiou a eleição do primeiro presidente não latino-americano. Vale lembrar que o Brasil só quitou parte de sua dívida com a ONU quando esteve sob risco iminente do vexame de perder seu direito a voto na Assembleia-Geral.

O bolsonarismo está revertendo um a um os ditames da diplomacia nacional consagrados pelo Conselho de Estado à época do Império – “inteligente, sem vaidade; franca, sem indiscrição; enérgica, sem arrogância”. Ou as lideranças privadas e públicas começam a impor reveses a essa antidiplomacia arrogante, indiscreta e vaidosa – como a recente rejeição do Senado ao candidato do Planalto à delegação das Nações Unidas – ou ela seguirá impondo reveses sem conta ao País.

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