O risco não é 31 de março, mas 6 de janeiro

A decisão do presidente Jair Bolsonaro de demitir o ministro da Defesa e os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica na semana dos 57 anos do Golpe de 1964 contrata uma crise para o futuro. Nas condições atuais, o presidente não tem respaldo popular, político, empresarial, militar ou externo para tentar ampliar sua autoridade e manetear a democracia. Mas as mudanças no topo da hierarquia militar mostram que isso pode ser uma questão de tempo.

A data a se preocupar não é a repetição de um 31 de março de 1964, mas de um 6 de janeiro de 2021, quando radicais trumpista invadiram o Capitólio e tentaram impedir a confirmação da vitória eleitoral de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos. 

A possibilidade de Bolsonaro não aceitar uma derrota eleitoral em 2022 é real. Quando ainda era deputado, Bolsonaro fez projeto defendendo a volta dos votos em papel, ideia considerada inconstitucional pelo STF. Ao longo da campanha de 2018, ele  incentivou teorias de conspiração de fraudes nas urnas eletrônicas, disse ter ganho a eleição no primeiro turno e prometeu apresentar provas que não existem. Ainda hoje, Bolsonaro defende projeto da deputado Bia Kicis que cria o voto impresso para “confirmar o resultado eleitoral”. 

Em 7 de janeiro, no seu primeiro comentário sobre o atentado ao Capitólio, o presidente foi claro: “Se nós não tivermos o voto impresso em [20]22, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que os Estados Unidos”. 

Em março, em uma entrevista ligeira ao Estadão, o filho 03 do presidente, deputado Eduardo Bolsonaro, condenou a falta de planejamento dos grupos que tentavam o golpe de Estado nos EUA. “Foi um movimento desorganizado. Foi lamentável. Ninguém desejava que isso ocorresse. Se fosse organizada, teriam tomado o Capitólio e feito reivindicações que já estariam previamente estabelecidas pelo grupo invasor. Eles teriam um poder bélico mínimo para não morrer ninguém, matar todos os policiais lá dentro ou os congressistas que eles tanto odeiam. No dia em que a direita for 10% da esquerda, a gente vai ter guerra civil em todos os países do Ocidente”, analisou Eduardo, que estava em Washington no dia do confronto, em contatos com vários trompistas, inclusive a filha do presidente, Ivanka Trump.

Mudar o comando das Forças Armadas com o propósito de alinhar os generais, almirantes e brigadeiros ao presidente aponta para um cenário turbulento. Como comparou o editor da revista Americas Quaterly, Brian Winter, as mudanças ministeriais de Bolsonaro parecem querer evitar um fracasso similar ao dos golpistas trumpistas de 6 de janeiro, como se dissessem “vamos nos organizar agora para não sermos ‘ilegitimamente’ tirados do poder mais tarde”. 

Em maio e junho do ano passado, Bolsonaro ameaçou vários vezes interferir no Supremo Tribunal Federal para intervir nos Estados que tentavam combater a Covid-19 com versões edulcoradas de lockdown. As ameaças ficaram em palavras pela resistência do então ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, e do comandante do Exército, general Edson Pujol. Com os dois fora do governo, fica mais fácil Bolsonaro agir. É factível especular supor que o novo ministro, general Braga Neto, e os substitutos nos comandos das três Forças possam ser mais suscetíveis a denúncias de fraudes eleitorais que, certamente, o gabinete do ódio bolsonarista irá espalhar ao longo da campanha. 

Campanhas eleitorais são pródigas em gerar a comoção social típica dos momentos de ruptura e, mesmo com um governo responsável por 320 mil mortes por Covid, Bolsonaro segue sendo um líder popular, carismático e com chances de reeleição. Mesmo aqueles que acreditam nos compromissos democráticos de Bolsonaro consideram altamente improvável imaginá-lo transferindo a faixa presidencial para um sucessor adversário, especialmente se for o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

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