O ‘sinal amarelo’

Editorial de O Estado de S. Paulo (26/3/2021)

O presidente da Câmara, Arthur Lira, advertiu o presidente Jair Bolsonaro de que o Congresso dispõe de “remédios políticos” para impedir que “a espiral de erros de avaliação” por parte do governo federal na pandemia de covid-19 assuma uma “escala geométrica incontrolável”. Segundo o parlamentar, esses remédios são “conhecidos de todos” e alguns são até “fatais”.

É evidente que o deputado Lira, a quem cabe dar andamento a processos de impeachment, falava de um hipotético afastamento constitucional do presidente. O parlamentar lembrou, assim, que a democracia tem seus instrumentos para impedir que maus governantes continuem a prejudicar seus governados, como Bolsonaro tem feito.

Chamou a atenção o fato de que a advertência de Lira foi feita poucas horas depois da reunião em que as autoridades dos Três Poderes acertaram a formação de um comitê de acompanhamento da crise.(Ver abaixo o editorial Esperança no tardio comitê.) Embora salientasse que se tratava de um “alerta amigo, leal e solidário”, o parlamentar deu a entender que confia pouco na disposição de Bolsonaro de levar a sério seu papel nessa suposta nova fase do governo. Trata-se, no dizer do próprio deputado Lira, de um “sinal amarelo”, ante a escalada da crise causada pela pandemia, agravada pelo comportamento irresponsável do presidente.

Se por um lado não se deve exagerar a dimensão da aparente ameaça do deputado Lira, por outro é impossível ignorar que a paciência dos parlamentares governistas com os reiterados despropósitos de Bolsonaro está bem perto do fim. Ao mesmo tempo que recordou ao presidente que sua permanência no cargo não é garantida, o presidente da Câmara indicou que para o Centrão – grupo político que hoje dá sustentação a Bolsonaro – é urgente uma reformulação radical na fisionomia do governo, a que Lira deu o nome de “freio de arrumação”.

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Esse movimento ficou mais evidente com a pressão do Centrão pela saída de Eduardo Pazuello do Ministério da Saúde, ante sua evidente incapacidade de tocar a pasta em meio à pandemia, cujos efeitos ameaçam os projetos eleitorais dos governistas. Muito a contragosto, Bolsonaro aceitou substituir Pazuello, que cumpria suas ordens sem pestanejar.

Mas o “freio de arrumação” não se limitará à Saúde. Em discurso na Câmara, o deputado Lira cobrou o estabelecimento de “boas relações diplomáticas, sobretudo com a China”, para ampliar a capacidade do Brasil de vacinar sua população. Foi uma referência óbvia aos ruídos causados pelo chanceler Ernesto Araújo na relação com a China.

Lira não falava sozinho. Hoje parece haver um consenso no Congresso de que a permanência de Araújo no Itamaraty amplia o isolamento do Brasil e prejudica decisivamente os esforços do País no combate à pandemia. Em audiência do chanceler no Senado, ao menos sete senadores, de diversos partidos, pediram que Araújo deixasse o cargo. Ninguém o defendeu – o senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, nem compareceu à sessão e os governistas não foram mobilizados para apoiar o chanceler.

É claro que uma eventual substituição de Ernesto Araújo não muda a essência do problema: nem o chanceler nem ninguém no governo atua sem estar totalmente alinhado ao presidente – e pobre de quem não estiver, como mostram os dois ministros da Saúde trocados depois de terem se negado a seguir as ordens absurdas de Bolsonaro. Logo, o problema não é este ou aquele ministro, embora haja alguns que são escandalosamente despreparados. O problema é o chefe.

O movimento do Centrão e do Congresso para a troca de alguns ministros e para reorganizar o combate à pandemia, portanto, serve para mostrar ao presidente quem está no comando agora. Bolsonaro pode escolher entre desgastar-se mais, correndo o risco de ver seu mandato abreviado, ou aceitar a tutela parlamentar.

Em seu discurso, o presidente da Câmara disse esperar que “as atuais anomalias se curem por si mesmas”, fruto de “autocrítica”, “sabedoria”, “inteligência emocional” e “capacidade política”. Como o atual presidente não tem nada disso, então, nas palavras do deputado Lira, que seja por “instinto de sobrevivência”.

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