O super BC

De todos os apoios que Arthur Lira amealhou para se tornar o novo presidente da Câmara dos Deputados, nenhum é mais surpreendente do que o do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Na véspera da eleição (31/01), Campos Neto e outros dois ministros jantaram na casa do ministro das Comunicações, o deputado licenciado Fabio Faria, com o presidente do PP, senador Ciro Nogueira. O jantar, de acordo com o Estadão, incluiu um bolão sobre quantos votos Lira teria no dia seguinte. Campos Neto apostou em 315. Foram 302.

A torcida será recompensada. Nesta semana, Lira prometeu colocar para votar o regime de urgência do projeto que dá autonomia ao Banco Central, com aprovação prometida ainda antes do Carnaval. O projeto, já aprovado no Senado, prevê mandatos fixos de 4 anos para os dirigentes do BC com objetivos formais de cumprir a meta de inflação e, em depois disso, “perseguir o pleno emprego e a suavização das flutuações da atividade econômica”, um fraseado que permite ao BC tocar a vida só pensando nos números do IPCA (inflação) e não nos do Caged (emprego).

Se o projeto for aprovado como está, será uma vitória pessoal de Campos Neto. Sucessor de uma superintendência do Ministério da Fazenda, o Banco Central foi criado em 1965 por ação do avô de Campos, à época ministro do governo Castelo Branco.

Além da autonomia do BC, há boa vontade ne Arthur Lira e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, com outros dois projetos de Campos, o marco legal do câmbio e a criação de depósitos voluntários dos bancos no BC.

A relação entre a política do Congresso e a agenda monetária é naturalmente tensa. Os primeiros defendem os interesses legítimos de seus eleitores, por mais gastos públicos. A turma do BC olha para as contas públicas com a preocupação de um médico que acompanha o nível de glicose de diabético. Os interesses, portanto, muitas vezes são opostos.

Trilhar o terreno minado da política é tão difícil que apenas dois antecessores de Campos Neto conseguiram se mover com habilidade: Armínio Fraga (presidente do BC entre 1999 e 2002) e Henrique Meirelles (presidente entre 2003 e 2010). Os dois sofreram os custos de serem acusados, sem provas, de terem levado o BC decidir a taxa de juros com olho no calendário eleitoral. É este o risco que Campos Neto corre a partir de agora.

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O exemplo prático dessa suspeita vai rondar a próxima reunião do Comitê de Política Monetária, em 16 e 17 de março. Depois de apenas seis meses com forward guidance de estabilidade ou queda na taxa Selic, o Comitê decidiu em janeiro abandonar o roteiro e abrir a possibilidade de alta de juros ao longo de 2021. O motivo é a persistência dos núcleos de inflação que, ao contrário do que dizia o próprio BC meses atrás, não é resultado apenas de altas sazonais pelo crescimento do consumo de alimentos com o Auxílio Emergencial e o repasse da desvalorização cambial picos de reajustes com a alta no câmbio. Esses choques já deveriam ter arrefecido, mas não é o que indicam os dados de janeiro. Seria um erro o BC reagir à choques temporários, mas há o risco de leniência em não atuar se houver uma contaminação da inflação para todos os preços. Como ainda não se sabe se esta contaminação ocorreu, o Comitê adiou a decisão para a reunião de março.

Por outro lado, o momento é péssimo. Com o fim do Auxílio Emergencial, as vendas no varejo despencaram. De acordo com as projeções do Santander, as vendas nos supermercados caíram quase 8%. As dispensas na virada do ano, usualmente já turbinadas pelo fim dos empregos temporários do Natal, foram as maiores em anos. Milhares de pessoas que recebiam o Auxílio Emergencial estão em busca de trabalho, o que estatisticamente significa que só agora serão incluídos como desempregados. Vários bancos trabalham com a possibilidade de uma retração na economia no primeiro trimestre. Subir a taxa de juros quando a economia está deprimida é contraproducente.

Politicamente, no entanto, não há dúvida que seria melhor para Bolsonaro ter um aumento de juros ao longo de 2021 para que a taxa fique em estabilidade em 2022, ano da reeleição de Bolsonaro. Toda reunião do Copom a partir de agora será vista também sobre seu efeito na campanha de Bolsonaro. Ter a boa vontade dos políticos tem ônus e bônus.

Esta ascensão de Campos Neto coincide com um momento ainda ruim do ministro da Economia, Paulo Guedes. Na semana passada, Guedes se reuniu com os novos presidentes da Câmara e do Senado e, para variar, não ouviu o que eles lhe disseram. Tanto Arthur Lira quanto Rodrigo Pacheco foram claros em reproduzir as duas maiores queixas nacionais, a falta de certeza de vacinação em massa e o fim do Auxílio. Em resposta, Guedes indicou uma lista com dezenas de projetos prioritários. Como se sabe, quem tem 50 prioridades não tem nenhuma.

No final de semana técnicos do Ministério da Economiza vazaram um novo plano para o Auxílio, que embute a obrigação do Congresso aprovar a PEC Emergencial e a Carteira Verde Amarela, duas ideias fixas de Guedes. O fato de o ministro se se achar mais esperto que o Centrão é uma piada pronta. O drama é que esse tipo de manobra tem consequências. Ao Valor, o presidente do PP, senador Ciro Nogueira, falou em usar uma nova CPMF para financiar um novo Auxílio Emergencial. Outros senadores, como Rodrigo Pacheco, trabalham com a hipótese de um crédito extraordinário de R$ 20 bilhões. Se Guedes não se mexer, vai terminar atropelado.

Ex-ministro e acostumado ao embate, o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros fez um alerta em entrevista ao Valor na semana passada: “Bolsonaro está preparado politicamente para enfrentar os próximos dois anos de mandato, em aliança com o Centrão. Se Guedes não entrar nessa dinâmica, vai ser mandado embora. Vai depender do perfil psicológico do Guedes dentro dessa nova realidade política”. Campos Neto parece saber navegar melhor nesse tumulto.

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