Para Bolsonaro, não acaba bem

Desde que assumiu, Bolsonaro vem promovendo, em todos os campos, uma devastação. Não faz isso sozinho: tem o apoio envergonhado ou escancarado de seus ministros (alguns até ontem respeitáveis), do Congresso, do PGR, do AGU, das Forças Armadas, de milhões de brasileiros. Até agora, somente o STF — em que pesem o comportamento errático, as decisões estapafúrdias, a má-fé de alguns ministros — ousou resistir aos arroubos anti-institucionais e antidemocráticos do presidente.

A CPI da Covid é a primeira ofensiva da sociedade contra um estado de coisas intolerável. É uma vergonha que 400 000 brasileiros tenham precisado morrer para que ela ocorresse, mas antes tarde do que nunca.

Nos próximos meses, todas as noites, os brasileiros verão na TV o detalhamento de ações e omissões, muitas criminosas, cometidas por membros do governo federal — e, por trás delas, como inspirador e/ou responsável, a figura do excelentíssimo senhor presidente da República.

Os bolsonaristas já mostraram como lidarão com esse desafio. O general Eduar­do Pazuello, alvo prioritário da CPI — cujo presidente é do Amazonas e acaba de perder um irmão para a Covid —, foi passear sem máscara (!) em um shopping center em Manaus (!!), onde gente morreu asfixiada por negligência sua.

“Se não ocorrer nenhum imprevisto, o relatório produzido pela comissão será demolidor”

Bolsonaro precisa que Pazuello se sacrifique por ele, mas Fabio Wajngarten destruiu o general em entrevista a VEJA. Precisa da boa vontade de Renan Calheiros, mas Carla Zambelli foi à Justiça contra o senador (em seguida, os bolsonaristas foram ao Supremo). Precisa da ajuda de Rodrigo Pacheco, a quem deveria ser grato por ter travado a CPI por dois meses, mas seu filho Flávio chamou o presidente do Senado de ingrato e irresponsável. O presidente cortou verbas para a saúde e para o desenvolvimento da vacina brasileira e ridicularizou a CPI.

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O general Luiz Eduardo Ramos, chefe da Casa Civil, deu de mão beijada à CPI uma lista de acusações das quais não sabe como se defender. Ramos disse que se vacinou escondido para não “criar caso” com o chefe, e Paulo Guedes atacou a China, cuja vacina representa 84% das doses aplicadas até hoje, e elogiou a da Pfizer, que o chefe se recusou a comprar. Não está claro sequer quem comanda a defesa do governo: o posto é disputado por Ramos, Lorenzoni e a novata Flávia Arruda.

Os atos dos bolsonaristas mostram que a defesa do governo na CPI não tem planejamento nem sensatez, e, se não ocorrer nenhum imprevisto, o relatório da comissão será demolidor. Colocará uma faca no pescoço de Arthur Lira — como o presidente da Câmara bloqueará o impeachment, se os senadores, responsáveis por julgar o presidente, o considerarem culpado de crime de responsabilidade? — e outra no pescoço do PGR, Augusto Aras, para quem o relatório será enviado.

Ainda que Bolsonaro consiga escapar de impeachment ou denúncia, a CPI terá se arrastado por meses, causando-­lhe enorme desgaste. O que acontecerá com sua popularidade? Que alianças construirá para 2022? Quem vai bancar sua campanha?

“CPI a gente sabe como começa, mas não sabe como acaba”, disse Jorge Bornhausen. Não sabe como acaba, mas, para Bolsonaro, não acaba bem.

Publicado em VEJA de 5 de maio de 2021, edição nº 2736

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