Pauta do atraso de Lira começa com jornalistas (por Helena Chagas)

Não se trata de saudosismo, nem interesse corporativo. Passei uns bons e felizes anos da minha vida ali naquele comitê de imprensa da Câmara, um olho no plenário, outro na vista do gramado e da rampa, exibida pela ampla fachada envidraçada. Mas jornalista está acostumado a trabalhar onde precisa. Já escrevi muito no chão, sentada em calçadas das mais diversas cidades do país e do mundo, passei matéria por orelhão, telefone de padaria, telex e rádio – sobrevivíamos antes dos fantásticos processadores de texto, celulares, WiFi, etc. Sob o ponto de vista estrito da prática diária, não haveria grandes prejuízos à liberdade de expressão com uma mudança de sala do comitê como a que foi determinada pelo novo presidente da Câmara, Arthur Lira, além da perda do conforto de uma porta dando diretamente no plenário. Mas o problema não é esse.

A coisa muda de figura diante das razões de Lira, reveladas pelos próprios aliados: está transferindo seu gabinete para o lugar onde hoje é o comitê a fim de ter passagem direta para o plenário e escapar às abordagens dos jornalistas a cada vez que atravessar o Salão Verde rumo às sessões, como ainda ocorre hoje – e, diga-se, ocorreu com todos os seus antecessores. Ulysses Guimarães, que às vezes acumulava três presidências (da Câmara, da Constituinte e da República, como substituto de José Sarney), atravessava o Salão Verde todos os dias, frequentemente de quatro a seis vezes no mesmo dia.

Enche a paciência? Enche. O próprio Ulysses às vezes fazia cara feia para nós. Outros presidentes bem que tentaram implementar o projeto arquitetônico que Lira está agora autorizando, que é antigo. Um a um, porém, foram desistindo, alertados por colegas e assessores, sob o argumento de que desalojar os jornalistas teria um simbolismo muito ruim, passando a ideia de desrespeito ao trabalho da imprensa. Responder perguntas de jornalistas, afinal, é um ritual da democracia, sobretudo para quem chegou naquele Salão pelo voto popular.

Lira parece não ligar a mínima para simbolismos, e muito menos para a prestação de contas de seus atos à sociedade, através da mídia, com a qual não tem boas relações. No seu caso, o que mais preocupa é a facilidade com que decidiu remover os jornalistas para uma sala no subsolo, sem explicações ou conversas, de forma autoritária e irreversível. É um comportamento que prenuncia outras ações do tipo – e não apenas contra jornalistas, mas principalmente contra ritos e direitos da democracia.

Um presidente da Câmara não pode tudo, mas pode muito. Não aprova projetos sozinho, mas os coloca em pauta e nomeia relatores e dirigentes de comissões. Todo mundo sabe que o Centrão, grupo que Lira lidera, não é reformista, e que boa parte da agenda liberal da economia vai acabar engavetada. É na pauta ideológica e de costumes que o novo presidente da Câmara pretende mostrar seus serviços ao Planalto. Armar a população, acabar com as leis do trânsito que salvam vidas, liberar policiais e militares para matar em serviço, dificultar ainda mais o aborto em casos de estupro… Tudo isso, e muito mais, está na lista. Salve-se quem puder.

Em tempo: Arthur Lira pode pensar que ficou livre dos jornalistas. Não ficou, nem ficará. O pessoal já está se preparando para cercá-lo, na entrada e na saída, na Chapelaria da Câmara, onde o presidente é obrigado a passar para entrar e sair do carro. Não há como escapar. Fácil ou difícil, é preciso seguir correndo atrás da notícia. Assim como os projetos da agenda obscurantista só terão sucesso se a sociedade não se movimentar nos espaços e brechas que a democracia ainda nos oferece para agir contra o autoritarismo.

Helena Chagas é jornalista

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