Por ministério, Queiroga topou caminhar entre a ciência e o bolsonarismo

O novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, assume a pasta no momento mais dramático da pandemia do coronavírus no Brasil. O número de mortes diárias bate recorde, enquanto faltam leitos em UTIs para receber pacientes e a campanha de vacinação avança a passos lentos. É um desafio gigantesco sobre os ombros do novo membro do governo. Mas não acaba por aí. Para além do problema sanitário, Queiroga tem de se equilibrar em outra missão:  evitar rivalizar com as ideias propagandas pelo presidente Jair Bolsonaro e sua claque bolsonarista, que há um ano minimizam os efeitos da doença, apresentam soluções milagrosas sem nenhuma evidência científica e duvidam até da quantidade de vítimas da Covid-19.

A estratégia foi repassada por parlamentares e auxiliares do governo ao novo ministro, que se mostrou disposto a não melindrar os apoiadores do presidente, famosos por fazer barulho nas redes sociais, em busca de garantir a cadeira do ministério, vaga que ele sempre almejou.

Diante da chance de assumir o posto, Queiroga foi aconselhado a evitar entrar em choque e ser habilidoso. Na conversa que antecedeu a indicação, da qual também participou o senador Flávio Bolsonaro, Queiroga tentou um meio termo entre as políticas já adotadas pelo governo e as que rezam a cartilha médica. Deu, por exemplo, passe livre para algum tipo de tratamento precoce e defendeu a autonomia médica, mas minimizou os efeitos da tão propagada cloroquina. Com a pandemia já tendo completado aniversário de um ano, explicou a urgência da vacinação, a importância do distanciamento social e do uso de máscaras e demonstrou preocupação com a baixa oferta de leitos em todo o país.

Queiroga chegou a dizer que, no caso extremo de não haver mais como abrigar novos pacientes em hospitais, uma medida como o lockdown, em que se fecha tudo, teria de ser adotada. Bolsonaro ouviu em silêncio.

Publicamente, porém, o tom é mais ameno. Queiroga assumiu o posto anunciando que as políticas da pasta são regidas pelo governo e tem evitado usar o termo lockdown, tão criticado pelo bolsonarismo. No lugar, defende algum tipo de “distanciamento social inteligente” e diz que essa não pode ser uma política de governo. Por enquanto, vem sendo aplaudido pelos apoiadores do presidente.

Com trânsito entre influentes políticos e lideranças de Brasília, Marcelo Queiroga foi indicado para o cargo de diretor da Agência Nacional da Saúde Suplementar (ANS) em dezembro do ano passado, após uma articulação do senador Ciro Nogueira (Progressistas-PI). À época, Queiroga intensificou seu beija-mão entre os parlamentares em busca de conseguir a aprovação na agência, o que dependeria de votação no Senado.

Nas conversas, o médico costumava ressaltar que havia atuado na transição entre o governo de Michel Temer e Jair Bolsonaro e chegou a revelar que ainda em 2018 alimentou a expectativa de assumir o Ministério da Saúde. Ele já se dizia próximo da família Bolsonaro – é amigo do sogro de Flávio Bolsonaro – e explicou que só não assumiu a cadeira na Esplanada logo no início do governo porque o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, havia indicado Luiz Henrique Mandetta para o cargo, conforme Flávio e Bolsonaro justificaram para ele.

 

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