Profissão militar: um sacerdócio (por Otávio Santana do Rêgo Barros)

Nos primórdios da carreira militar essa frase título nos é apresentada e seu significado permanece entranhado em cada um de nós: dedicação incondicional à Pátria, submissão constitucional aos poderes da República e perfeito entendimento de que somos uma Instituição estritamente de Estado.

Passados mais de quarenta e cinco anos do meu primeiro contato com a farda, percebo que esses princípios em nada mudaram.

A manutenção de um padrão de comportamento tão austero exige dos integrantes das Forças Armadas abdicar de envolver-se em “armadilhas” que possam desvirtuar o core da Instituição. Não somos melhores nem piores. Somos distintos, já que carregamos a responsabilidade de agentes da violência em nome do Estado.

Os atributos inatos da profissão servem para sustentar posturas, nem sempre bem compreendidas pela sociedade em geral, que são essenciais para o encaminhamento do sacerdócio.

Nos últimos trinta e cinco anos – período pós governo militar -, o Exército fixou-se em procedimentos ainda mais rígidos de comportamento, com a finalidade de profissionalizar o estamento e, pouco a pouco, alargar a confiança com a qual a sociedade sempre o qualificou.

Estou convicto do êxito dessa empreitada.

A mais importante dessas condutas foi, a bem da verdade, um posicionamento reativo: não introduzir a política partidária dentro dos muros dos quartéis.

A história se renderá ao comportamento de todos os comandantes da Força, cada um ao seu tempo, no objetivo de proteger, particularmente os mais jovens, do contato com os movimentos eleitoreiros que nublam a consciência do jovem soldado, inapto para entender todas as nuanças desse envolvimento.

Os militares participam de cerimônias, próprias de liturgias seculares, que demarcam a ascensão ao longo da carreira, repletas de profundos significados.

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Lembro-me do dia (03 de março de 1975) em que entramos pelos portões da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) em Campinas, eu ainda vestindo a farda de aluno de Colégio Militar, para dar início à caminhada de oficial do Exército.

Cerimônia simples, intimista, apenas familiares e membros do corpo permanente daquela organização de ensino militar. Se teve discurso, não me lembro quem o proferiu, tampouco o seu conteúdo, mas seguro estou que nada havia de política.

Naquele mesmo ano, juramos à Bandeira, em admirável formatura no pátio central da Escola. Se teve discurso, não me lembro o conteúdo, tampouco quem o proferiu, mas seguro estou de que nada havia de política.

Após três anos, lá concluímos o ensino médio e nos aprumávamos para a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), o nível universitário na formação dos oficiais do Exército. Bela cerimônia. Se teve discurso, não me lembro quem o proferiu, tampouco o seu conteúdo, mas seguro estou que nada havia de política.

Não preciso ir adiante nessa trajetória. O objetivo deste artigo é alertar, veementemente, para a inadequação, a qualquer tempo, do uso de púlpitos militares, para recados políticos.

Nessas ocasiões, o que os perfilados imóveis e seus convidados extasiados de alegria esperam ouvir são incentivos motivacionais, sustentados em predicados militares, elaborados por autoridades militares ciosas da importância de não misturar água (sacerdócio militar) com azeite (política partidária). Não se mesclam.

Não é justo que a pureza de momentos tão especiais seja turvada por quaisquer pronunciamentos que não estejam alinhados no profissionalismo militar, na servidão de coração e na ética militar.

Paz e Bem!

 

Otávio Santana do Rêgo Barros é general do Exército e ex-porta-voz da presidência da República. Escreve aqui às quartas-feiras 

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