Proposta brasileira para Biden é uma cascata amazônica

Em 1979, quando era um promissor senador da poderosa Comissão de Relações Exteriores dos EUA, Joe Biden foi enviado a Moscou para uma reunião sobre as complexas negociações de desarmamento nuclear com a União Soviética. Depois de ouvir o primeiro-ministro soviético Alexei Kossygin falar sobre as pacíficas intenções do programa espacial da URSS, Biden retrucou para surpresa de todos e constrangimento do intérprete:

“Eu sou de Delaware e lá existe um ditado: você não pode cascatear um cascateiro (em inglês, you can’t shit a shitter)”. Esse tipo de sinceridade era típico do jovem Biden, uma forma tentar tirar as negociações das frases feitas para a prática.

Mais de 40 anos depois, o cascateiro Biden é o presidente dos Estados Unidos e organiza no próximo dia 22 um fórum com 40 líderes mundiais para lançar um programa global de redução de danos ambientais. O encontro será virtual e a primeira oportunidade na qual Biden poderá se dirigir a Jair Bolsonaro, um dos últimos chefes de governo a reconhecer a sua vitória e que por meses propagou teorias de fraudes nas eleições americanas.

Na campanha, Biden anunciou que se eleito formaria um fundo global de US$ 20 bilhões para preservar a Amazônia. Logo depois da sua posse, uma força-tarefa liderada pelo secretário John Kerry contatou todos os países amazônicos para rascunhar um acordo a ser anunciado na reunião do dia 22.

A proposta do Brasil é uma cascata de proporções amazônicas. Em entrevista ao Estadão, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, se colocou como um sequestrador que exige um resgate sobre um refém: “Se tivermos US$ 1 bilhão para colocar a partir de 1º de maio nos comprometermos a reduzir (o desmatamento) de 30% a 40% em 12 meses. Se não tiver o dinheiro, vamos fazer com as nossas expensas o máximo que conseguirmos, mas aí não posso me comprometer com porcentuais”, afirmou, em entrevista à repórter Giovana Girardi.

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A entrevista caiu mal entre os negociadores americanos. Sem oferecer nenhuma garantia, Salles adiantou que pretende gastar a maior parte do dinheiro equipando a Força Nacional, o batalhão formado por policiais militares. Isso depois ter desmontando a estrutura de fiscalização do Ibama e de bater de frente com a Polícia Federal por defender interesses de madeiros e garimpeiros.

A sugestão de que os EUA vão primeiro dar dinheiro a Salles para depois esperar resultados é tão estapafúrdia que espantou o vice-presidente Hamilton Mourão, presidente do Conselho da Amazônia. “Não acredito que Biden vá soltar dinheiro para o Brasil agora”, disse à repórter Maria Cristina Fernandes, do Valor. Segundo Mourão, qualquer quantia só será liberada depois de julho, quando saem os dados do Prodes, o monitoramento do desmatamento da floresta amazônica por satélite realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os dois últimos relatórios do Prodes mostram que sob a gestão Bolsonaro, o desmatamento e os incêndios na Amazônia perderam controle. Em apenas dois anos, o país perdeu o equivalente em floresta ao território de Israel – os piores resultados da década.

Para a diplomacia americana, a oferta do pacote bilionário de proteção à Amazônia seria um jogo de ganha-ganha. O Brasil capta recursos para reequipar sua fiscalização, promove projetos sustentáveis para as populações locais e preserva as florestas. Os Estados Unidos ganham uma enorme oportunidade de relações públicas depois de anos como o vilão ambiental mundial. O problema é que os americanos não entendem o governo Bolsonaro.

Mal informada, a equipe americana imaginava que Salles seria derrubado dentro da reforma ministerial que tirou Ernesto Araújo do Ministério das Relações Exteriores. Ledo engano. Salles é o mais nefasto ministro do meio ambiente da história, mas é apenas um cumpridor de ordens.

O maior erro que o time de Biden pode fazer em relação ao governo Bolsonaro é supor que o desmatamento na Amazônia é um acidente. Não é. É um projeto. O governo brasileiro não quer nenhum dinheiro que implique em cobranças de metas de redução de desmatamento e queimadas. Isso poderia “afetar a soberania nacional”, tão cara no discurso bolsonarista, além de prejudicar os interesses dos eleitores do agro. A política antiambiental é popular na base bolsonarista no agro e os melhores índices de popularidade do governo estão nas regiões rurais das regiões Norte e Centro-Oeste. Tendo de escolher entre seus eleitores mais fiéis e uma foto simpática com o presidente dos EUA, Bolsonaro não terá dúvidas.

Bolsonaro e Salles não vão mudar. A dúvida é vão conseguir cascatear um velho cascateiro.

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