Reality (por Tânia Fusco)

Se o Brasil fosse um reality-show, tipo Big Brother Brasil, quem hoje estaria no paredão da eliminação?

No modelo BBB, o paredão é uma berlinda, onde, uma vez por semana, três dos participantes-confinados, indicados por seus pares, vão a júri popular eletrônico. O mais votado sai e leva na mochila o sonho de ganhar um milhão e meio de reais.

Por essa grana, homens e mulheres, previamente selecionados pela produção do reality, expõem ao mundo suas vidas com tudo que cabe dentro – do caráter às tripas.

Na banalidade do cotidiano dos confinados, durante meses, o público telespectador vai elegendo mocinho/as e bandido/as, além dos nem-uma-coisa nem-outra, que fazem figuração obrigatória para sustentar as longas temporadas do programa.

Quem leva a bolada do prêmio é o escolhido, pelo público votante, como o mais mocinho de todos. Mesmo os “bandidos” podem passar por diversos paredões e não sair. Mas não chegam ao final. E, vida afora, irão “desfrutar” fama de ex-BBB do mal. (Há, claro, os/as ex-BBB do bem. Muitos).

Simplificado assim parece só mais uma das muitas chatices que a TV aberta apresenta.

Pra quem nunca viu, jura jamais passar perto, odeia quem assiste e quem comenta ouso dizer: não é só uma bobagem. O BBB é também espelho ou menu do país – onde, a cada temporada, cabem das modas e modismos de cabelo e de roupa ao politicamente correto. Aí valendo bons e explícitos ensinamentos sobre elementares questões humanitárias – respeito às diferenças, compaixão, fraternidade, sororidade.

Em 19 anos de existência e 21 edições, o BBB já criou “especialistas” em treinar os selecionados antes do confinamento. Ensinam, imagino, espécie de etiqueta, de como não cometer erros capazes provocar a ira do público, severo em seus julgamentos.

Ainda que devidamente treinados, é quase impossível resistir, sem deslizes, aos 90 dias de vida vigiada 24h por dezenas de câmeras. Aí é que moram os perigos de tropeços fatais. Quem não convence, sai. Não há torcida organizada que sustente os muito incorretos no exercício de ser humano.

No Brasil real, quantos entre nossas autoridades, se expostos 24 horas/dia, por muitas câmeras, iriam ao paredão e seriam sumariamente eliminadas por mau comportamento humanitário?

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Bolsonaro não vale. Não há especialista ou treinamento capaz de humaniza-lo. Já está no paredão da História. Será eliminado. Não há torcida ou boiada que dê conta de salvá-lo.

Exposto, não conseguiu ser big um dia sequer.  Brother? Só dos filhos.

Mas, de cloroquina em cloroquina, audácia e impunidade, Jair conseguiu levar um país inteiro ao paredão. Ainda que com torcida e reza, diariamente, milhares de brasileiros – bons, maus ou nem tanto – vão para a eliminação na triste berlinda da morte.

A vida, às vezes, em forma de tragédia, imita um reality-show.

Caso Henry

Não dá para não falar do Doutor Jairinho – tudo de monstro, nada de médico. Acusado de torturar jornalistas, de participação em milícias, é vereador, foi líder de governo de dois prefeitos do Rio de Janeiro.

Comportamento de psicopata, olhar vazio de sociopata, trocou muitas vezes de mulheres – sempre jovens e belas, profissionais com carreira assentada.

Torturou, ameaçou e amedrontou todos os filhos menores de cinco anos dessas parceiras, também agredidas por ele. Seguiu impune – sedutor, doutor e vereador – até a morte de Henry, menininho de quatro anos. E continuou protegido, quase acobertado pela cumplicidade da mãe do menino assassinado.

Viver, às vezes, dói.

Tânia Fusco é jornalista 

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