Sem entregas (Por João Bosco Rabello)

Ao produzir um questionário com simulação de questões a serem levantadas pela CPI da Covid para que os ministérios construam sua defesa o governo sugere um roteiro para a própria comissão. Ali estão relacionadas todas as vulnerabilidades a serem exploradas, com pouca margem de reação.

Um relatório dessa dimensão só poderia ser elaborado se fosse possível um inquebrável sigilo interno, o que é impossível nos tempos atuais. O governo oferece assim uma espécie de confissão sobre onde admite ter errado, ainda que conteste todas as acusações. A maioria não tem defesa.

Não há como negar que o presidente da República liderou – e ainda o faz – uma desobediência civil em relação ao cumprimento dos protocolos sanitários de prevenção à disseminação da pandemia.

Há fartura de imagens e áudios em defesa da aglomeração, do uso de medicamentos preventivos de eficácia contestada pela medicina, de ameaças do uso de força militar para desfazer o isolamento social e tantas outras.

A produção doméstica de cloroquina pelo Exército, ao invés da antecipação na contratação de vacinas, está documentada pelo próprio presidente. O que torna muito frágil, para dizer o mínimo, a acusação do ex-chefe da Secom, Fábio Wajngarten, de que foi responsabilidade exclusiva do general Pazuello a escolha. É uma tentativa de defesa dissimulada de ataque.

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A performance de Bolsonaro em todo o enredo impossibilita que, de boa fé, seja dado como um presidente alheio ao que se passava no ministério da Saúde, como pretende Wajngarten. Até porque demitiu três ministros – dois deles por se recusarem a assumir a defesa de uma linha oposta à sua. Não por acaso, o general Pazuello, que obedeceu “por ter juízo”, é o elemento mais frágil na linha de defesa.

Ninguém mora na União, mas nas cidades e capitais. E, nestas, cumpre o estabelecido por governos e prefeituras. Como referência física, a União é uma abstração, um balcão de redistribuição de impostos. A ação pessoal do presidente da República, no entanto, produziu desobediência a normas estaduais e municipais e inviabilizou o isolamento em suas fases mais decisivas. O que persiste.

A CPI não deve ser interpretada como um atalho para eventual impeachment. Será um fórum de desgaste crescente no ano estratégico para governos que pretendem a reeleição: o terceiro do mandato, ano das entregas prometidas em campanha. E não as há.

O debate eleitoral até aqui, porém, se mantém na pauta dos costumes, portanto, ideológico. Bolsonaro tem obtido êxito nessa empreitada. A CPI pode ser o diferencial em tal contexto, como um fio terra a inserir no debate a realidade de governo.

Esta é ruim. A economia não decolou, as reformas perdem gás e tempo, o vírus mantém seu poder destrutivo e letal e não há anestesia para seus efeitos dolorosos.

João Bosco Rabello escreve no https://capitalpolitico.com/

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